Domingo, 17 de Abril de 2016

Ontem [Como se fosse já]

barco.jpgHá dias em que volto ao rio. Para me tingir de azul. E amornar as lembranças que marinheiram ao sabor das marés. Para me segurar ao verde que cai da serra. Rir. E mergulhar nos afetos. Nas correrias assarapantadas dos caranguejos em direção aos juncos que povoavam a margem. A do lado de cá. Na outra está a cidade. As luzes e uma fonte luminosa. E a voz que embeleza avenida com líricas de amor. No entanto, o meu regresso concretiza-se no bote. O doce encanto do momento! É nele que viajo. Que vou e chego. E vejo. Depois percorro as vozes e os rostos que me seguraram. Estabeleço todos contactos. Ato e desato os laços. Mas é em jeito de reclamação que fico. Porque o rio corre para o mar. Onde tudo é água. Como as lágrimas.

Às vezes, não me lembro por onde caminho. Fico por lá. Mas é fantástico! É indispensável que o meu rosto esteja molhado. Pelo azul da água. Pelo sal. E pelo deserto do silêncio. Assim, vejo tudo nitidamente. Como se fosse já.

 


Domingo, 3 de Abril de 2016

Desacerto [desabafo de uma galinha]

gal.jpg[Imagem da Internet]

 

  Quando vim ao mundo (ovo prodigioso) já ele cantarolava. Fui adolescendo e esse crescer quotidiano alicerçou-se numa distribuição de tudo. No espertar da manhã, no entusiasmo tão inquietante como arrebatado. Superior a relação que se estabeleceu entre nós.

Distinto galo! Jovial na forma, galeria de cores, galante no falar, gaiato nas notas de acordar. Todas as manhãs. Naturalmente. Poeta, também. Daqueles que veneram as palavras e as letras. Que verbalizam as sílabas delirantes de contentamento. Alheado de mundividências. Presente na emoção e na paixão que são a razão de eu permanecer aqui. No modo de dizer erva e estrelas-do-mar e terra e formiga e eu e tu e nós… tamanha sensibilidade! Enorme comoção. Com coisas simples. Com o desadormecer do Sol que se erguia para além dos montes. E chegava com flores. Papoilas. Rubras papoilas.

Triste galo. Enredado na teia do galinheiro. Destino a cumprir, calvário resignado, fado cantado pela manhã. Asas penadas que se derramam pelo galinheiro.

Amor amado, o nosso. Inveja da galinhada, claro. Tratados, crónicas, jornais, romances… Nada! Não houve notícia de amor assim. Na linguagem, na erudição.

Compreendem agora como fiquei? A que peso me entortei? Ao Amor. Traí propósitos e quebrei promessas. Apenas ambicionava ser uma galinha afortunada que rumorejava:

- Bom dia, Amor.

- Talvez um dia…

Embora um dia seja excessivamente tarde… e o muro muito alto. A capoeira é grande. O chão é plano. Sem ímpeto para saltar.


Terça-feira, 29 de Março de 2016

A outra margem [restauro mentalmente um barquinho de papel]

cegonha.JPG(Foto de João Mendes)

 

   Havia a outra margem. Era o lado de lá que se desfazia em acenos. Satisfação. Água. Contentamento. E muita areia. Depois regressavam as cegonhas. E os ninhos. Tanto voo para alimentar as crias. Equilibrismos. Asas ao vento na mira dos pastos. A minha mãe explicava-me que era assim. Que as mães tinham que alimentar os filhos. Que dava trabalho, mas que os cansaços sabiam bem.

Em baixo, o canal bordejado de verde. O colo de uma água tranquila. Segura no cumprimento da sua missão. Alimentar as lavras do arroz. Corria lentamente. E os rapazes atiravam-se a ela em mergulhos destemidos. Em despique. Ela ignorava-os. O arroz bebia-a até à última gota. Uma ponte. Cansada. Rouca de tanto alertar os miúdos. A seguir, sempre em frente, era a totalidade de tudo o que existia. O meu tudo. O rio, sempre o rio. Azul. Sossegado. Seguro. Apenas quando chovia se mostrava desinquieto. Havia o bote e os remos. E eu ia. Por vezes, e foram tantas, saltava um peixe. Eu sorria. Ficava a olhar, calada no silêncio líquido da maré cheia. Eu sabia que chegaria a vazante. Que não podia sair dali. O meu pai tinha-me ensinado os rostos do rio. Houve dias em que me esqueci. A solução era deixar o bote. Saltar para a água e caminhar pela lama atá à areia. Foi assim que comecei a saber o rio por dentro.

No meio do rio, não pensava em nada. Não havia hora marcada para a doçura do marulho. Pressentia-lhe os desejos. Ouvia-lhe as vontades. Conheci-lhe a voz. A dança e o ritmo. Os sonhos. Via-os azuis. Com sopros de tranquilidade. Eram sorrisos com sabor a sal. Eu lambia os dedos. E quando tinha fome, mergulhava. O meu corpo jurava que a água estava fria e ele ria-se com pequenas ondas de cristas alvacentas.

Há pessoas que nunca provaram um rio. Não o mastigaram num silêncio perfeito. Ignoraram a espuma. Que nunca correram atrás de um caranguejo. Nem engenho para segurar os lingueirões que se encovavam na areia. O meu pai sempre lhes chamou canivetes e é assim que me lembro desses linguarudos moluscos. A verdade é que a concha retangular, adelgaçada e longa cortava mesmo. Os distraídos e desajeitados. Os que nunca tinham saboreado o rio. Os outros não, que sabiam como pegá-los.

Lembro-me dos homens indignados. Com o vento e com a forte ondulação. Com o nevoeiro. Afirmavam as âncoras e a ausência das redes. As mulheres ignoravam os queixumes. Criticavam as invetivas desmesuradas. Asseguravam a inutilidade dos ditos mordazes, ofensivos, provocatórios. Que o rio era assim. Que era uma questão de liberdade. De autonomia.

E eu, que era obrigada a ficar em terra, fundeava no meu porto de abrigo. Era um quarto pequeno. Com uma enorme janela para o rio. Ali, eu construía botes de papel. Navegava. Fugia. E voava ao ritmo da maré. Só voltava quando a minha mãe anunciava a hora do almoço.


Domingo, 27 de Março de 2016

Oportunidade

DSCN2900.JPG

passam as horas

esgotadas no relógio

passam os filmes

amarelados no ecrã

passam os pés

impacientes na calçada

passam as vozes

indolentes pelo rio

passam os dias

esfarrapados pelo tempo

passam as tempestades

insubmissas pelo céu

 

e eu fico

sentada na expetativa de mim

ou de ti

 

que passaste.


Sábado, 26 de Março de 2016

Palavras pequeninas [E crocodilos coloridos]

Crocodilos, Sérgio Fernandes.jpg[Tela de Sérgio Fernandes]

 

- Podes dar-me água?

- Com certeza …

   Podias responder que sim! Eu entendia melhor…Pois podia, não me lembrei. Por vezes os adultos complicam tudo. Concordou comigo, sem deixar de acrescentar que os crescidos não sabem falar com as crianças. Que os miúdos sabem palavras mais pequeninas. Limitei-me a aceitar os argumentos, sem deixar de pensar como haveria de medir o tamanho das palavras. Desisti de imediato. Afinal, as palavras pequenas são mais doces.

   De repente, como se o tempo e o lugar tivessem renunciado a ser grandes, perguntou-me se eu estava a ver os crocodilos e o vermelho que se estendia por baixo do escorrega. Respondi que sim, na esperança de ter recorrido a uma palavra de dimensão adequada. Confirmei que um deles tinha riscas pretas e amarelas. Que era muito estranho. Que não havia crocodilos assim. Pois não! Repara naquele! Tão lindo… é vermelho… o outro é verde. Olha aquele como é azul. Tão lindos, não são? Não duvidei, não fosse a descrição ganhar palavras desnecessariamente grandes.

   Olhou para mim. Pelo rosto escorria a importância do momento. Apenas os olhos adivinhavam a noite que se aproximava, antecipando o brilho das estrelas. Sobrava um pouco de sol. Pediu-me que tomasse conta das crias. Obedeci. Rogou-me cuidados. Enumerou outros tantos. Sim? Perguntou com a certeza a refulgir nos olhos negros. Salva os ovos! Que os tirasse da margem por causa das pessoas que têm os pés pesados e desatentos.

   Cuidadosamente, peguei nos ovos. Caminhei como se transportasse uma bilha de água na cabeça, aproximei-me do ninho. Aqui? Sim! E assegurou-me que eu acabara de fazer uma boa ação. Que tinha salvado os pequenos. Sorri na delícia do gesto e na doçura das palavras, mesmo que pequeninas. E os mesmos olhos ávidos de narrativas perguntaram se voltávamos no dia seguinte. Com certeza. Voltaremos. E voltou a explicar que bastava um sim. Que era uma palavra mais pequena. Como ele! Que descobrira crocodilos coloridos numa abandonada poça de água.

   E foi nesse momento que me lembrei que, no meu tempo, as poças tinham rãs. Verdes. Não me lembro de outras cores...

 

 

 


Segunda-feira, 31 de Agosto de 2015

O rio

Poisadas - rio.JPG

 

Queria tanto ser o dia. A noite e o mar. Enfiar o Sol na algibeira e escorregar pelo momento. Pisar o verde. Beber o perfume das flores. Desenhar ramos de papoilas. Trepar aos frutos e comer os figos. Para deixar as árvores agarradas à raiz.

Queria muito acordar abraçada à voz do meu passado. Beijar a manhã contar uma história de encantar. Com duendes pequeninos. E fadas. E o pipilar dos pardais. Parar no crepúsculo que paira na nitidez do quadro que jaz solitário na parede do quarto.

Queria fruir o mar que tem o rio. Demasiadamente…

 


Sábado, 22 de Agosto de 2015

Sardinheiras

O roxo alastra-se pela alegria do vinho num copo descansado no alabastro do dia. O jornal cai pelo chão amarrotado pelo deserto das notícias repisadas e os teus olhos perdem-se na contemplação do tempo que escorrega pela ladeira ornada de sardinheiras vermelhas. São flores sentadas nos postigos das velhas que se benzem e cantam rezas muito restritas e pendentes nos retratos alinhados em cima das cómodas. São memórias de sombras vagas que lhes definem confortos do luto dos vinhos.
E tu seguras as paredes nuas do quarto. Sentes a ausência das lágrimas. Pensas que a pele é insuficiente para absorver o líquido que escorre do copo. E sais. Lá fora estugas o passo. Enquanto eu arrumo os copos já esquecidos do momento. Apenas as sardinheiras exultam o esmero da cor.

 

(Fotografia da Internet)


Segunda-feira, 17 de Agosto de 2015

No lado contrário

2011-08-18 11.57.36.jpg

 

Eu sei
O lugar onde
As árvores
Deixam as raízes

 

E sei que no instante
Em que um árvore
Se cala no incómodo das folhas
Um grito brota
Cristalino e indeciso
No alívio da noite

 

 

No lado contrário

 

Ergue-se a distância
Entre o grito e o silêncio
Ergue-se a longe
Entre o agora e um dia destes

 

No lado contrário.

 


Terça-feira, 21 de Julho de 2015

Gola de laço

 

- Tens joanetes?
- Hum?
- Inflamação óssea do dedo grande do pé… calos… dores…
- Tenho! Tu sabes que tenho… No corpo todo. Na alma. Se calhar usei vestidos apertados. Desadequados. Ou saias. Talvez calças… As blusas às bolinhas. Lembras-te? Aquela que tinha uma gola que terminava num enorme laço. Tu gostavas. Ensinavas-me a dar os nós. A desfazê-los. Outras vezes a destruí-los. Fazíamos isso juntos. Tantas vezes. Depois prendíamos as nossas mãos em gestos lassos. Para terminar num beijo demolido. Agora não sei de ti. Desconhecemo-nos. Estranhamos os nossos olhos. Deixei de usar camisas com golas de laço. Nem uso sapatos aguçados. Porque me dói a alma. O corpo. A tarde que proibimos que entardecesse. Tenho! Tenho joanetes.

 


Sexta-feira, 26 de Junho de 2015

A conversa das canções [as que sabem falar]

monte

 

E se elas falassem? Diriam que sim, na total assunção da personalidade. São palavras que eu sei, mas não digo. Sílabas obstinadas que calam o meu silêncio. Dissonâncias que apunhalam. Mimam. Sonham e gemem comigo num doce e profundo navegar. E vou por aí. Tal nau empreiteira de mares e viagens e desejos e saudade. Outras vezes não. Sinto-as asas ou pétalas ou folhas desfiadas que me engadelham o pensamento. Numa maré de tempo. Que é. Porque foi. E se elas falassem? Eu ficava. Na certeza que há canções que me adivinham. Como o mar que me festeja com poemas. Só não tenho a certeza se este rio é uma canção. Música ou baile. Mas é um poema!

 


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]
Page copy protected against web site content infringement by Copyscape "Douce l'éternité qui coule des fontaines/ Au printemps quand le vent dissipe les brouillards/ Douce la porte ouverte à l'ombre du grand chêne/ Et douce son odeur dans la soie d'un foulard."

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Pois é...
Sabes uma coisa "pequenina"? Continuas a escrever ...
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Escrita poética Gostei.
Pois, sabe bem ler as tuas palavras... saudade.
Que lindo!! Como sempre, uma escrita deliciosa...U...
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