
Uma sensação redonda e estranha agarra-me e leva-me até ao outro lado do dia. Até à interior da minha pele. Fico entre a luz e o verde. No frio que escorre lá fora. O tempo instala-se e trepa pelas paredes. As pernas sobem canseiras acumuladas nas folhas das árvores, enquanto os pardais se satisfazem na alegria das ginjas. No vale escorre o eco silencioso e perfumado dos frutos. Numa enorme maré de vermelho. Como se o sangue trepasse ao cimo da decisão onde a cura é a voz modelada que se repete no apetite das sílabas. E diz a palavra cereja com o mesmo prazer com que saboreia a doçura da minha pele. E lambe a voracidade do vendaval. Um vento desnorteado que as faz corar no apetite do beijo. O sol ergue-se no alto e cai serenamente no rio. Agora a noite é minha. Eu percebo que há um túnel no tempo. E um mapa que percorro com os dedos todas as manhãs.
[foto da internet]
Gosto das tardes tristes de inverno. Do nevoeiro em que me deito e descanso num baloiço de braços. No lume que crepita e se perde no céu da memória. Depois corro! Corro na alegria da chuva e adormeço no segredo das vozes. No atropelo dos passos. Gosto das tardes tristes desfeitas no cinzento do tudo que não vejo, mas sinto. E desfaço-me no mito. Gosto dos dias tristes! Com nevoeiro espalhado pelo chão onde procuro a razão fundamental para a interrupção da comunicação. E satisfaço-me no engano da cor. E finjo que as mãos que seguram o frio não são minhas, não. Numa excêntrica e imperecível tarde de nevoeiro.
Apenas o cão vagueia descontente pela hora do silêncio. E cala-se na tristeza do caminho. E fica caído também. Como se gostasse das tardes tristes de inverno e visse o que estava no outro lado da manhã. E eu abraço-o com o carinho que me escorre dos olhos. E repito que gosto das tardes tristes de inverno. Só não sei a razão deste tanto gostar. Se não vejo. Se não sei o que esconde o nevoeiro. Por mais que estenda o olhar, gasto-me a olhar para lá. Redizendo que não vejo a claridade destes dias de inverno.

O pai natal é um velho barbudo que se enfia pelas chaminés das casas. Não pede aprovação. Entra. Depois retirar-se num velho trenó arrastado por renas meticulosas, sem queixas. Mas voam. Ficam os presentes derramados pelo chão. Até à vinda das mãos escancaradas de alegria das crianças, pela manhã. E numa viagem de circum-navegação à roda dos sonhos, fingimos que sim. Mesmo que muitas crianças já não acreditem na história. E isso que importa, se o que está em causa é um antónimo da vida da gente e se nos perdemos no mercado das ilusões?
Não me lembro de ter mantido grande proximidade com o pai natal. Ele nunca ia lá para os meus lados e eu decidi que o melhor era ignorá-lo. Eu tinha o rio que corria sossegado num abraço quente e azul. E uma casa com uma chaminé enorme que segurava uma cafeteira de esmalte azul e aquecia a cozinha com canecas cheias de café que fumegava bem cedo. Pela parede serpenteava um carinhoso perfume que olhava para os alguidares de barro com enlevo. Sabia que debaixo daqueles panos brancos desabrochariam douradas filhoses salpicadas de açúcar e canela. Do outro alguidar viriam sonhos de abóbora. Depois de sovas bondosas à massa que crescia e sorria. Eram largos minutos de ritmadas pancadas num afetuoso castigo da época. O lume crepitava gaiato no chão. E dizia a verdade da ilusão. Acarinhava as mãos que religiosamente cumpriam o ritual. Cumpria-se a fartura da tradição. A minha avó colocava um jeito tão doce na fazedura dos sonhos que ainda me lembro de sonhar com ela. E chegavam vozes dos lados todos. Tantas que não as conhecia todas. E a cozinha, que era tão grande, encolhia-se aos pés dos mais crescidos. Era por isso que as crianças não tinham lugar à mesa. Estendiam-se pelos degraus da escada com o prato nos joelhos. As gargalhadas andavam para baixo e para cima numa roda-viva própria daquele tempo. Nunca por lá vi o pai natal. Não foi preciso, nem foi convidado. No saco que carregava às costas não cabia a alegria com que a minha avó modelava as rabanadas. Nem a música que pulava dos dedos do meu avô quando se agarrava à concertina e dizia versos moldados na satisfação de nós.
Mas não me consigo esquecer de uns sapatos de verniz que a minha mãe me comprou. Castanhos e com um lacinho da mesma cor. Deveriam ser muito bonitos porque todas meninas os cobiçavam. E todos os anos, pelo natal, tornávamos à mesma sapataria. E, invariavelmente, a minha mãe me dizia que era coisa do pai natal. E, invariavelmente, eu perguntava à minha mãe se o pai natal me compraria uns sapatos novos no natal seguinte. Às vezes, ela dizia que sim. Outras que não sabia. Talvez um casaco. Ou umas botas. E eu acreditava.
Agora que é tempo de pai natal, eu rio. Para os olhos da minha mãe que se aliavam aos meus no doce regozijo do fingimento da compra dos sapatos. E vejo um rio muito azul envolto num véu de nevoeiro. Que espuma a tinta azul com que se escreve a minha infância.
[A todos um Feliz Natal!]
fotografia do blogue Terra Viva
O bom da manhã, mesmo que borralheira e a espreguiçar-se pelos telhados frescos e calados, está no jeito com que olho para o sol. Não o vejo da minha janela, mas sei que está lá. É por isso que no meu corpo sobrevive o doce e quente aconchego da minha íntima certeza.
O sol entrou no quarto, como se a porta permanecesse amplamente escancarada e eu tivesse dito que sim. E viveu alongado num tapete de verdade, multiplicando-se na luz. Até a chuva chegar. E choveu uma chuva pequenina que permanecia como se o baile fosse ali. O vento desconcertava-se no aperto das mãos como se a concertina fosse eu. As vozes expunham alaridos desproporcionados sentadas na ombreia da porta. Como se tivessem engolido pedaços se sol que lhes incendiava o alvoroço. Numa dição quase que imperfeita. As ruas tinham mudado e a alegria já não cabia nos passeios. As tabernas, agora de portas fechadas, já não negociavam vinho. Quebraram-se os jarros, desagregaram-se as asas. Sobre o balcão de mármore malhado e encardido, jaziam, desamparados, meia dúzia de copos de barro. No outro lado da rua, as portas entupiam-se ao ritmo do silêncio. E fechavam assustadas com a ausência da música. Já não havia vinho, nem vinhas, nem uvas. E as vozes exclamavam que a culpa era de Baco. Que ao provar o rubro líquido se deslumbrou com tantos atributos. Delírio da mulher que corria pela estrada e que não compreendia tamanha arrumação. Desconhecia a razão de tantas portas fechadas. Estranhava que o divino deus fosse a causa do fecho das tascas. Garantia que não fora ele que partira os copos. Irritada, olhou para mim e exigiu que lhe explicasse o que lhe tinha acontecido. Sei lá!!! Eu apenas sabia que já não havia música nos beirais, nem vinho, nem uvas, nem bêbedos felizes.
Ela dormia. Adormecera ao ritmo da melodia que tocava no baile. Rouca e cansada. Uma velha canção que ouvia no sussurro das lágrimas que apertava nos solavancos do peito. E não se cansava. La chanson des vieux amants vivia numa ilha de temperaturas que se perdiam numa doce onda de calor. Na excelência do verde. Uma voz masculina dizia e ela chorava. Era com aquela canção que o chamava no instante em que o tempo se suspendia. Depois dançava. Sabes, Beatriz, que dá para dançar? Se não acabar… se não acabar… E não percebera que o baile findara. Beatriz permanecia sentada na paciência das cartas. Num jogo retido na monotonia do gesto. Jacinta era de uma beleza sossegada, pensava, mesmo quando dormia num sono atropelado. Guardava a amiga com a mesma brandura com que segurava o ás de copas. E irritava-se com a inutilidade da sequência. Afinal, Jacinta dormia profundamente sobre os ziguezagues que a vinculava ao caminho. Ela estava ali para guiá-la na redefinição do dia. Afiançava que Jacinta merecia aquele sono e que deveria continuar a ouvir aquela canção e a dançar.
Mal a música se calou, Jacinta abriu os olhos numa amena suavidade, espraiou os braços e as pernas. Sentou-se e olhou para Beatriz. Depois, o seu olhar percorreu mansamente a sala. Pendurou-se na janela que se escondia debaixo de umas cortinas vermelhas que dificultavam a afoita entrada do sol. A luz impedia-a de ouvir o que acontecia no outro lado do rio. Apenas o gato se mantinha no silêncio do mármore do parapeito da janela. Caía-lhe o rabo pela parede. Um excesso que usava para brincar. Atirava as patas como se fossem mãos à procura de abraços. E na ausência de tudo, abraçava-se na ilusão do afeto. E ria à custa da imbecilidade do desacerto. Pulou afomeado. Miou meigas e lamechas palavras aos pés da dona. Olhou para ela e foi-se deitar na imobilidade do sofá vermelho. No contentamento do conforto que o corpo de Jacinta ali deixara. Por todo o lado explodia um perfume deslumbrante. Jacinta perdurava no sustento da janela. Atravessou a frustração e ergueu-se na ilusão do instante. À sua frente, rapazes e raparigas sentavam-se na agitação das cadeiras. A sala estendia-se até às janelas numa tolerância de verde cada vez mais verde. E ela falava como se fosse verdade. Era o corpo todo que dizia, enquanto as mãos acariciavam as palavras e a voz disfarçava a emoção da ocasião. Ela sabia que havia lobos pelos cantos e que os peixes não resistiriam às fortes tempestades do inverno. Jacinta agia como se um vento frágil soprasse entre ela e os desenhos que brincavam nos lápis dos garotos. Ela olhava, ao mesmo tempo que um intenso cheiro a mar esvoaçava pela sala. Juntou tudo. O papel, o lápis e a crispação do esboço. Nas folhas em branco nasciam traços hesitantes que ela embalava ao ritmo da vida que lhe tinha quebrado o caminho. Depois, recolheu os desenhos um a um com um sorriso misericordioso. Par cada risco ergueu o passado. Olhou para as janelas e contemplou as mãos vazias. Por instantes, abrigou-se da tempestade. O gato desabou do sofá com o peso do sono, incriminando a cauda do arrastar para o tapete.
Jacinta estremeceu. Deu dois passos para trás. Agradeceu o silêncio de Beatriz com um sorriso desanimado. E ambas, no intervalo das mãos, extinguiram-se num abraço. Beatriz permanecia sentada à cata do ás de copas. Jacinta perdia-se na hesitação. Assustou-se. Um frio ameaçador transpôs a pele da sua perturbação. Sentou-se no sofá vermelho. Cautelosamente para não aborrecer o gato. Reparou na imensa cauda amarela arrumada no tapete. Levantou os braços, ergueu as mãos, lambeu o passado, afagou a cabeça. E deixou-se cair na ilusão do afeto.
Encostou-se e fechou os olhos. Percorreu o caminho de areia e sentou-se à beira do rio. Roubou o azul às gaivotas e voou mais alto. Então, assaltou o céu. E ouviu a mesma canção. Velha e rouca. E mais uma vez chorou. As lágrimas demoraram na areia e atiraram-se ao rio. Quando quis retomar o caminho, não sabia qual o barco que a levaria até lá.
Num estranho sossego, o sol começou a cair numa espiral de aborrecimento. Ergueram-se os olhos. Calaram-se as mãos. O corpo amparou-se nas paredes despidas e quentes daquela tarde de Agosto. Arrefecerá no dia em que o sol se erguer. Ali, onde o estrondo aconteceu. Uivaram os muros. Secaram as fontes e os pássaros bradaram canções enfraquecidas. Chorou a árvore que morreu no final do verão. Fora de tempo. Depois de muitas águas, pernoitaram ecos moribundos e árvores sem ninhos. As andorinhas preferem os beirais dos telhados longínquos. Por isso, vão. Para tornar a chegar. Longe das mãos, perto da luz. Então, envolvem-se em bailes de alegria. E dançam, dançam até as asas quererem. Depois, a noite. Longos são os sonhos, curto é o dia. E tudo recomeça num regresso inaugurado. Quando o silêncio se esgota na efemeridade das vozes, dizem as palavras que calam na enorme vontade de voltar para a frente. E afirmam que o mar está colado ao rio e o rio às cegonhas que pulam para os ninhos de bico farto no deleite da merenda. E eu, numa cantilena quase calada, asseguro que o meu rosto está atado ao rio que está ligado à minha terra que está presa ao medronhal que está agarrado ao pardal que esvoaça no beiral do telhado onde me abrigo e descanso num cordel de estendida memória que está subjugada ao azul com que pintaram o quadro. Onde regresso para me aproximar outra vez.
Entre a casa e a fonte, havia o céu. Que se dizia na penitência da areia. Nos pés enterrados na firmeza do conseguir. Iam com a mesma crença com que chevagam. Apenas mais quentes. Entre a casa e a sede, existia uma fonte. Que se afirmava na cristalina frescura da água. Na veneração da vida. Todos os dias. Enquanto o Sol se demorou por ali. Murchou o orvalho, secaram-se os olhos. A fonte morreu. Mas tiveram que arrombar a distância que vai do nascer ao pôr-do-sol. Permanece a paisagem. Num desenho inigualável que guardo para mim. E um vento fresco e luminoso bate-me no rosto. Uma doce melopeia voluteia na serenidade do dia. Uma concertina dedobra-se na repetição dos acordes. Abro-lhe a porta. E tenho tudo. Outra vez. Sempre que a sede se incendiar na minha boca.
Dizem-me que um rio é um rio. Qualquer um sabe trandordar das margens. E entoar melodias ao luar. Num espelho e luz e pedir à Lua que o venha abraçar. Que tem água, tem o mar. Falam com o mesmo à vontade com que as pedras rolam do leito. Desfeitas nas lágrimas poisadas. Conversam num tempo de guerra. E os ventos são uma incerteza. As vítimas são sempre em maior número e, nos estaleiros, os barcos agonizam mágoas tão díspares! É distinto o meu rio. Eles nunca entraram na casa que descansa na areia e abre as janelas aos pardais, enquanto as garças se encandeiam num mar de azul-verde. Nunca escutaram a música que ondeia na serenidade do branco. Nem provaram o sal que se levanta no ajuste das marés. Não sentiram a mansa e delicada respiração do rio que galgava as escadas até ao sótão. Esquecem-se dos instantes. Quando a areia carregava segredos de espuma que as vozes murmuravam à tardinha no açucarado esplendor do Sol. E as ondas rodopiavam num admirável passo de dança no apetite da pele. Nunca cuidaram das vozes que se ampliam na areia, na sorte dos búzios. Nenhum rio é igual no caminho para o mar.
No corpo carregam as sobras do Verão, na tentiva estéril de se encostarem a elas. Num socorro duradoiro. Beijos e afagos desorientados. Ocorrências controladas. Medidas na excelência do Sol. No ar, ondula um odor a hesitação e uma vontade desmedida de voltar para trás. Longe da exaltação do regresso, há um retorno forçado. Passos desgarrados. Um papel. Dez cêntimos. Mais nada. Nestas circunstâncias acesas, enrodilho-me na justeza do meu rio. E vou… no remanso das marés.
Tudo lhe doía
de tanto que lhes queria:
a terra
e o seu muro de tristeza,
um rumor adolescente,
não de vespas
mas de tílias,
a respiração do trigo,
o fogo reunido na cintura,
um beijo aberto na sombra,
tudo lhe doía:
a frágil e doce e mansa
masculina água dos olhos,
o carmim entornado nos espelhos,
os lábios,
instrumentos da alegria,
de tanto que lhes queria:
os dulcíssimos melancólicos
magníficos animais amedrontados,
um verão difícil
em altos leitos de areia,
a haste delicada de um suspiro,
o comércio dos dedos em ruína,
a harpa inacabada
da ternura,
um pulso claramente pensativo,
lhe doía:
na véspera de ser homem,
na véspera de ser água,
o tempo ardido,
rouxinol estrangulado,
meu amor: amora branca,
o rio
inclinado
para as aves,
a nudez partilhada, os jogos matinais,
ou se preferem: nupciais,
o silêncio torrencial,
a reverência dos mastros,
no intervalo das espadas
uma criança corre
corre na colina
atrás do vento,
de tanto que lhes queria,
tudo tudo lhe doía.
Eugénio de Andrade
Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto.
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