Domingo, 27 de Dezembro de 2009

Ter [na ausência das marés]

Jorge Soares
 
 
 
 

Tenho frio. Tendo um copo de vinho que se esvazia na gula dos dedos boquiabertos. Tenho sede. Embriago-me na tristeza liquefeita da vinha. Na ira da raiz. Esfrego as mãos nas parras que se despedaçam na terra. Tenho o enjoo encostado a mim. Que me atravessa em pontos determinados. No alvoroço das marés. Remo no silêncio sossegado da baixa-mar. No instante em que o horizonte é lugar no longe. No nada. Na efeméride calada. Tenho olhos de vidro. Escaqueirados no areal. Lá, onde os copos não existem e os vinhos não transportam alegrias de entoar.

 

Vai-te, flutuante casa da memória. A minha ferida segue à bolina na doce espuma do desgosto. Enfeitada com vozes afónicas. Tenho a noite. Que é mais segura sem ti. De dia, sobram-me roncos dos barcos vazios. Esburacados. Rombos nas mãos que ainda tenho. Na sede da água que se foi com a maré… Outra vez a casa. A casa deles não vem com o mar. Tenho a memória dos pardais que trinavam no telhado. A ver aqueles barcos que já não podem naufragar.

 

Sou barca atracada na quietude do desabrigo. Tenho uma mansa planície de papoilas azuis no sangue. Ardo na língua do Sol. E o barco segue, como se a foz o não tivesse afogado. Como se as amarras detivessem o vendaval. O homem do barco a remos desligou o motor. E as barcas persistem no seu carregar. Não tenho. Mas as gaivotas caçam o equívoco da abundância…


 


4 comentários:
De Graça a 27 de Dezembro de 2009 às 15:09
Na ausência das marés, fica a rebentação das palavras, carregadas de sentimento, de saudade...  às vezes, gostava de saber dizer, como tu, que "a minha ferida segue à bolina na doce espuma do desgosto". Enfim...


Querida Paolaaaaaaaaa, um beijo imenso de carinho e bom domingo.Image


De Jorge Soares a 28 de Dezembro de 2009 às 00:00
Somos o que já vivemos não é amiga?


As barcas vão e vem ao sabor da maré... assim é a vida.


Beijinho e boa semana
JorgeImage


De jabeiteslp a 28 de Dezembro de 2009 às 23:06

um feliz ano novo

que desejo seja mesmo
e de preferencia a abanar o capacete até às tantas...

jocaseImage

eu vou apanhar um monumental
pifo sem igual

e dois dias a dormir com a anastesia...


De Eduardo Aleixo a 30 de Dezembro de 2009 às 18:43

BEIJO e bom Ano NOVO.


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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]
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