Domingo, 25 de Abril de 2010

Temporalizar [edição limitada de naturezas vivas]

 

 

Gosto tanto de ver os meses espalhados no chão! Do sabor a terra. De ter os olhos encharcados de luz. De noite e muito luar. Mas do que eu gosto mais é de os contar. E conto-os um a um, não me vá o Sol escapar. Uma vez e outra. E torno a contar. Às vezes engano-me. São gralhas acidentais. Escorregadelas dos dedos que resistem ao rigor do Inverno. Tropeço no pranto dos dias marcados. E delicio-me com um suculento pedaço de tempo. Depois, guardo numa caixinha acelerada a primeira vez que vi o Sol nascer. E a chuva que se consome no alimento das flores. E a água que corre pelo calor dos nossos corpos. Há uma paisagem estendida no prazo das nossas mãos acocoradas na escrita de um poema. Uma seara de gestos da qual resta o cavalo que galopa pela liberdade de querer chegar. E temos os nossos olhos que se desorientam com as palavras que calamos. Como um sopro de melancolia resignada. E reconto aqueles dias que foram tão pouco. Quase tudo, mas tão pouco. Mastigo as horas do adormecer das laranjas que se aquietam no laranjal, enquanto as nossas línguas se perdem no sabor do alecrim e as laranjeiras se despedem dos vultos sombrios e se queixam da censura das paredes. Há o ardor de Agosto, quando nossa sede se quebra no rubro cetim da melancia. Anoto as horas. Rasgo os dias em que uma afogueda talhada escorre pelos nossos rostos numa plangente canção de despedida. Se ao menos os frutos estivessem maduros. Se ao menos as cascas não escondessem as cicatrizes que se sustentam de Janeiro a Janeiro. Até ser dia outra vez.

 

Gosto tanto de contar o tempo! Do perfume das flores que Abril tem. Mas há Janeiro preso a uma fotografia abatida pelo coração. E Março afogado mum rio que fora tão azul. Só que a seguir vem Setembro com a barriga prenhe de gargalhadas celestiais. E Fevereiro consola-se no brilho das ternas e eloquentes azeitonas. Gosto tanto que chova agora. E que a água seja estrelas, terra e Sol. E vinho, cepas e cabaz. Para que eu, quando olho este tempo fértil de saudade, possa regressar sôfrega ao abrigo. Onde as tuas mãos param numa oração amplificada de fé.

 

Gosto tanto de narrar esta série continuada e eterna de instantes! Contudo, hoje, venho sentar-me a teu lado. Rejeitar gestos supérfluos, para me aconhegar na distância dos nossos corpos. Enquanto o vento sobrevém neste sereno e veludíneo dia e a data se veste de nós. Para lá do resto, tenho um Abril que se cumpriu. No grito líquido e nutritivo da papoila.


1 comentário:
De allungare il pene a 3 de Maio de 2010 às 13:00
seu blog é muito bom! Eu não leio Português bem, mas eu amo o que você escreve!


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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]
Page copy protected against web site content infringement by Copyscape "Douce l'éternité qui coule des fontaines/ Au printemps quand le vent dissipe les brouillards/ Douce la porte ouverte à l'ombre du grand chêne/ Et douce son odeur dans la soie d'un foulard."

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