Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2011

O meu pai natal [num tempo em que o rio espumava tinta azul]

                            

O pai natal é um velho barbudo que se enfia pelas chaminés das casas. Não pede aprovação. Entra. Depois retirar-se num velho trenó arrastado por renas meticulosas, sem queixas. Mas voam. Ficam os presentes derramados pelo chão. Até à vinda das mãos escancaradas de alegria das crianças, pela manhã. E numa viagem de circum-navegação à roda dos sonhos, fingimos que sim. Mesmo que muitas crianças já não acreditem na história. E isso que importa, se o que está em causa é um antónimo da vida da gente e se nos perdemos no mercado das ilusões?

Não me lembro de ter mantido grande proximidade com o pai natal. Ele nunca ia lá para os meus lados e eu decidi que o melhor era ignorá-lo. Eu tinha o rio que corria sossegado num abraço quente e azul. E uma casa com uma chaminé enorme que segurava uma cafeteira de esmalte azul e aquecia a cozinha com canecas cheias de café que fumegava bem cedo. Pela parede serpenteava um carinhoso perfume que olhava para os alguidares de barro com enlevo. Sabia que debaixo daqueles panos brancos desabrochariam douradas filhoses salpicadas de açúcar e canela. Do outro alguidar viriam sonhos de abóbora. Depois de sovas bondosas à massa que crescia e sorria. Eram largos minutos de ritmadas pancadas num afetuoso castigo da época. O lume crepitava gaiato no chão. E dizia a verdade da ilusão. Acarinhava as mãos que religiosamente cumpriam o ritual. Cumpria-se a fartura da tradição. A minha avó colocava um jeito tão doce na fazedura dos sonhos que ainda me lembro de sonhar com ela. E chegavam vozes dos lados todos. Tantas que não as conhecia todas. E a cozinha, que era tão grande, encolhia-se aos pés dos mais crescidos. Era por isso que as crianças não tinham lugar à mesa. Estendiam-se pelos degraus da escada com o prato nos joelhos. As gargalhadas andavam para baixo e para cima numa roda-viva própria daquele tempo. Nunca por lá vi o pai natal. Não foi preciso, nem foi convidado. No saco que carregava às costas não cabia a alegria com que a minha avó modelava as rabanadas. Nem a música que pulava dos dedos do meu avô quando se agarrava à concertina e dizia versos moldados na satisfação de nós.

Mas não me consigo esquecer de uns sapatos de verniz que a minha mãe me comprou. Castanhos e com um lacinho da mesma cor. Deveriam ser muito bonitos porque todas meninas os cobiçavam. E todos os anos, pelo natal, tornávamos à mesma sapataria. E, invariavelmente, a minha mãe me dizia que era coisa do pai natal. E, invariavelmente, eu perguntava à minha mãe se o pai natal me compraria uns sapatos novos no natal seguinte. Às vezes, ela dizia que sim. Outras que não sabia. Talvez um casaco. Ou umas botas. E eu acreditava.

Agora que é tempo de pai natal, eu rio. Para os olhos da minha mãe que se aliavam aos meus no doce regozijo do fingimento da compra dos sapatos. E vejo um rio muito azul envolto num véu de nevoeiro. Que espuma a tinta azul com que se escreve a minha infância.

 

[A todos um Feliz Natal!]

 

fotografia do blogue Terra Viva

 

 


3 comentários:
De jabeiteslp a 24 de Dezembro de 2011 às 22:37


que seja muito feliz...


De Paola a 27 de Dezembro de 2011 às 15:17
Tudo bom. Bom ano, também. Beijinho.


De jabeiteslp a 27 de Dezembro de 2011 às 23:14


e daqui a 3 dias
abanar o cockpit





até às tantas ?....


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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]
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