Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2012

Não é tempo [das ginjas]

 

Uma sensação redonda e estranha agarra-me e leva-me até ao outro lado do dia. Até à interior da minha pele. Fico entre a luz e o verde. No frio que escorre lá fora. O tempo instala-se e trepa pelas paredes. As pernas sobem canseiras acumuladas nas folhas das árvores, enquanto os pardais se satisfazem na alegria das ginjas. No vale escorre o eco silencioso e perfumado dos frutos. Numa enorme maré de vermelho. Como se o sangue trepasse ao cimo da decisão onde a cura é a voz modelada que se repete no apetite das sílabas. E diz a palavra cereja com o mesmo prazer com que saboreia a doçura da minha pele. E lambe a voracidade do vendaval. Um vento desnorteado que as faz corar no apetite do beijo. O sol ergue-se no alto e cai serenamente no rio. Agora a noite é minha. Eu percebo que há um túnel no tempo. E um mapa que percorro com os dedos todas as manhãs.

 

                                  [foto da internet]

 


1 comentário:
De Nilson Barcelli a 19 de Julho de 2012 às 23:41

Beijo de saudades...


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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]
Page copy protected against web site content infringement by Copyscape "Douce l'éternité qui coule des fontaines/ Au printemps quand le vent dissipe les brouillards/ Douce la porte ouverte à l'ombre du grand chêne/ Et douce son odeur dans la soie d'un foulard."

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