Domingo, 29 de Julho de 2012

Jacinta XVIII [com os pés no chão]

 

 

 

 

Jacinta acordou sobressaltada. Que fazer quando o susto lhe tolhia as pernas e o medo se agarrava às mãos. Qual barco qual nada, cochichava. Sabia que Beatriz estava ali. Fico…Fico… Já estou. Não olhava. Não a via, mas sentia-lhe a tranquilidade do silêncio. O aroma da cumplicidade. Levantou-se arrebatadamente. Somente o salto do gato fora manso e certeiro. Há muito que partilhava a sua privacidade com a dona. E como a sabia! Nos sonos abertos que faziam no sofá, trocavam os sonhos. E as determinações por conveniência estendiam-se no chão.

Jacinta ergueu os braços numa infinda resolução de afastar a preguiça que se alastrava pelo corpo. De pé, mostrava a finura do seu corpo. E via a sua beleza levantada. Acercou-se da janela. Olhou sem a certeza de ver o que quer que fosse. Mas deixava que os seus olhos presenciassem o que lhe cortava o coração.

Ao fundo, levemente para a esquerda, um moinho agonizava com os mal-estares do tempo e a incapacidade dos homens. Asilava montes de mães que se davam na negritude das amoras. Cresciam bravias por entre as paredes abandonadas. Negras, saborosas, desejáveis, todavia valiam algumas dores. Eram cachos suculentos que não se deixavam apanhar. Às vezes, Jacinta ia lá. E deliciava-me no encanto dos frutos. Um cão corria de um lado para o outro no alvoroço da alegria. De tão beijado pelo sol, o pelo soltava fiapos de ouro. Nos olhos cabia a doçura azul-clara que o dia lhe dava. Nas orelhas a consonância com a raça. E pulava na fartura das flores. Eram abrigos coloridos no entusiasmo da terra. O cão corria, enquanto Jacinta teimava que não partiria. Porquê? E fazia comparações sem como, sem nada. Apenas com uma brisa aquietada na copa das árvores. Era de lá que via o mundo que a rodeava. E andava com as palavras que afastava com as mãos hesitantes. Curvava-se na necessidade de achar a decisão. Olhava e não reparava no cão que içava a cauda na vaidade do sol como se cantasse em versos sublimes a disputa da luz.

Jacinta dobrava-se no peitoril de mármore, apoiando os braços num enredo profundo. Beijava os ecos que se repetiam na cabeça. E sentia um sofrimento imenso. Amava-o no desatino da primeira vez. Colocar um ponto final num amor feliz. Doía-lhe tanto! Por tanto o querer. Exatamente por isso. Há amores felizes assim. Que pernoitam no segredo do corpo. Sentiu o frio da indiferente pedra. Inerte e insensível ao murmúrio da água corrente do riacho que descia pelo ramalhar das oliveiras. E o sol caía num poema calado. Nesse instante, Jacinta sorriu.

Beatriz acabava mais uma paciência. Não levantou a cabeça, mas pressentiu o sorriso da amiga e percorreu com ela o caminho do desconforto. Beatriz percebia que pelo outro lado da janela ia passando uma corrente de sabedoria tão natural como as propriedades distintivas das flores. Ou do cão.

Vou ficar, Bia. Afirmou sem vacilar. Beatriz procurou-lhe os olhos e acrescentou que percebia. Há tanto que se conheciam! Jacinta falava. Que se lembrava perfeitamente dos corpos deitados na areia. Do calor contestado que os juntava. Do cheiro dos caminhos. E acrescentava que estivera a uma minúscula distância do céu. E que se lembrava das papoilas rubras que cresciam na colina. E passava a língua pelas palavras com a mesma fome com que trincava os sabores. Um a um, demoradamente. Letra a letra. No sabor de uma tarde de verão. Agora, Jacinta reconhecia bem as palavras que eram boas para comer. Irra! Ainda vejo a sombra dele. Ainda existe a alma. O sorriso esverdeado que se espraia nas marés. Beatriz ouvia-a. Só a escutava.

Jacinta chegou-se de novo à janela, olhou e viu o rio. Não o que estava lá. O outro. O que se apressava nas veias. O rio que serpenteava na calada do azul. E lembrou-se dos movimentos elegantes dos flamingos. Dos voos madrugadores das cegonhas. Do porte majestoso e branco das garças. Um límpido manto cor-de-rosa esvaía-se como uma rosa. Efémero. Com princípio. Mas sem fim. Guardá-lo-ia no outro lado da vida. Junto ao rio. Para sustentar o coração.

Beatriz antecipava o frio que viria. O vento e a chuva. Jacinta falara verdade. E no silêncio das suas mãos esticava a adesão parceira de quem participou na história. Beatriz sempre esteve ali. Protegeu sem anotações rabiscadas. Sem térreos bons-sensos. Sem opiniões, sequer. Findava as conversas com um sejamos felizes, amiga. Com a força que o conjuntivo lhe dava.

O gato acordou com o silêncio. Jacinta aproximou-se. Pegou-o ao colo e sentou-se no sofá. O bichano fechou os olhos no encanto dos afetos e preparou-se para mais um jantar tranquilo, enquanto um violino chorava na calçada.

Beatriz levantou-se e disse que tinha fome. Que o melhor era sair. Vamos jantar no restaurante do senhor Carlos, sugeriu. Jacinta concordou no mesmo instante em que o telemóvel tocou. Foi um grito sofrido. Uma súplica que ecoou pela sala. Estremeceu. Atendeu e disse o que já tinha dito. Não. Numa extensão que lhe magoou o corpo inteiro. Depois tornou a dizer o mesmo. Mais uma vez. Desligou o telefone. Sorriu e pediu que fossem. Afinal, a minha vida sou eu. Mais a minha história. Mesmo que os meus pés não estejam seguros no chão. Também o sol cai à noitinha, assegurava.

 


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]
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