Sexta-feira, 5 de Outubro de 2012

Patadas [no desarranjo dos pés]

A minha mãe queixava-se amiúde da tortura que lhe advinha de ter os pés grandes. De nada servia o colo daqueles que tentavam acalmá-la. Que era alta, bonita… Como queria ela amparar tantos adjetivos se os pés fossem pequenos? Irritava-se sempre com a solenidade de tais palavras. E os sapatos? Só há números para  bonecas!

O pior era quando o meu pai se metia na conversa. Lembrava ele os benefícios dos pés grandes. E tecia elogios descarados à beleza dos ditos. Que aquilo sim, eram pés. E tudo descambava quando o confronto se punha entre duas palavras: pés e patas. Que não! Ela tinha uns pés lindos, vistosos que lhe assentavam muito bem. Ainda se lembrava de vê-la a caminhar na areia. No desembaraço do movimento. Enquanto os outros se arrastavam num passo hesitante e desleixado. Um passo para afrente e dois para trás. Como os caranguejos que corriam para a água. Pronto, lá voltava a conversa das patas. O caranguejo tem oito para correr e mesmo assim fá-lo de lado. Deve ser, pensava ela, por andarem descalços. Coitados. A minha mãe sempre lutou pelo livre acesso aos sapatos. Dizia ela que o problema não estava no que calçava, mas nos calcantes. Não percebia a crise dos números. A razão por não ser produzidos sapatos para todos os pés. Escasseavam os modelos e os que apareciam, eram para as clientes habituais.

Ela sabia fazer rendas e tricôs, camisas e vestidos. Também calças. Sapatos é que não. Valia-lhe o verão que era esbanjador em chinelos. O pai é que sofria durante todo o Inverno. De vez em quando, lá andavam à patada.

Agora, que o tempo é fartura, as montras estão atoladas de números e cores. Eu sei que há pés e patas para todos os modelos. Mas há as patadas. Que mais não são do que pancadas com a pata ou pé. Deve haver por aí, muita gente com pés grandes.

Sinto saudade das patas da minha Hera. Uma linda e doce cadela. E que patas! Sempre que me pisava, tinha a noção do peso. Olhava para mim, pedia desculpa e erguia-se num aceno de carinho. Depois, erguia a pata na direção de uma festa.

É por isso, que tenho saudade dos pés da Hera. E dos pés minha mãe. Que sempre me pouparam às patadas da vida.



2 comentários:
De jabeiteslp a 5 de Outubro de 2012 às 20:37


um grande e maravilhoso Fim de semana


De Paola a 5 de Outubro de 2012 às 21:11
Também para ti.

Jinhos


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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]
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