Terça-feira, 1 de Janeiro de 2013

saboroso ano novo [na ausência do rio]

As despedidas são sempre tristes e esta não era excepção.

As férias estavam no fim, as malas feitas, a casa arrumada, o carro atafulhado de tralha. É impressionante o volume de memórias e lágrimas não derramadas que se consegue arrumar no porta-bagagens de um Toyota Corolla!

Antes de partirmos rumo a casa, um último adeus à praia dos meus afetos.

O dia despedia-se da luz. O céu cobria-se de farripas de algodão doce que dançavam embaladas pela suave e amena brisa, num festival de cores. E, de repente, desenhou-se um arco-íris do tamanho do céu. Por cima de mim, o firmamento era de um azul anilado, passando por um tom verde amarelado para terminar num laranja avermelhado que se estendia até onde a vista já não conseguia ver. E eu passava por baixo, na alegria das cores. Escondida sorrateiramente atrás das nuvens, uma estrela abria os seus braços para mim, aconchegando-me no seu colo e atrasando a partida. Aquele era um lugar que existia a prazo e, por isso, havia que prolongá-lo no olhar.

Ao fundo, recortado na linha do horizonte, o monte brotava suavemente, como se um pintor tivesse tido uma doce perturbação e o delicado pincel lhe tivesse escapado momentaneamente das mãos. E o lugar surgia, concebido por um ser superior, numa fresca representação bíblica.

Depois, só tons de azul. Atalhados por uma estrada de um amarelo muito cálido que o Sol abrira só para mim, corri até ao areal que percorri descalça. Uma suave espuma vinha beijar-me os pés. Falava baixinho. Num murmúrio delicioso, um lamento desesperado que me invadia e perturbava, mas que quero reter na memória.

No areal, os botes sobreviviam despidos de brilhos de outros tempos. Era desolador vê-los assim, vazios do seu esplendor, da algazarra das crianças, do ensurdecedor barulho das agulhas de croché da avó, das conversas das “tias”. Do balde negro que chegava com chocos, lulas e robalos.

Segurei-me àquele cheiro. Não era um cheiro qualquer, de uma qualquer praia, de um qualquer rio. É o meu bálsamo. Inconfundível. Reconhecê-lo-ia em qualquer lugar e é dele que eu sinto mais falta quando não estou ali.

É um misto de mar, com cobertura de algas e recheio de espuma, mais ou menos como as lulas recheadas que a minha mãe servia no dia de ano novo. Porque um poema não para no fim. Porque um verdadeiro poema vive eternamente.


(imagem da internet)




Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]
Page copy protected against web site content infringement by Copyscape "Douce l'éternité qui coule des fontaines/ Au printemps quand le vent dissipe les brouillards/ Douce la porte ouverte à l'ombre du grand chêne/ Et douce son odeur dans la soie d'un foulard."

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