Sábado, 12 de Janeiro de 2013

XIX. Jacinta [nos círculos do tempo]

 

O dia acordou enrolado num nevoeiro cerrado. Fazia frio. Não se vislumbrava o sol, apenas um fecundo pressentimento permitia supor que chegaria mais tarde. E não lhe apetecia. O sol chegava sempre tarde, pensava, enquanto enterrava o rosto na almofada. Por vezes nem vinha. Outras vezes, eram reflexos amuados que desciam lentamente pela manhã. Eram quase nove horas. Tinha frio. No quarto caía uma quietude perturbada. Que permitia ver formas indistintas na imperfeição daquela indigente luz. Jacinta há muito que acordara. E percebia vozes. Nítidos os rostos. Corpos que se despiam na sombra do nevoeiro.

   Aos pés da cama, uma banqueta magnificamente arrumada. Lacada de um nobre e preguiçoso branco, alindava-se num vermelho acetinado como o canto de  paixão. Sobre o banco pé de cama, um robe curto. De seda pura com mangas largas, estilo raglã. Um luxo suave e doce que se prolongava na maciez do estampado. Debaixo do banco, o gato. A fidelidade felina ronronava a sua presença. Que estava ali, que gostava dela. Jacinta voltou-se e enleou-se no tempo, puxou o lençol. Agarrou o dia e ficou por lá. Ela sabia que Beatriz chegaria por volta do almoço. Na noite anterior, tinham acordado almoçar juntas para prosseguir as frases inacabadas. As incertezas e os medos. As fotografias que partilharam ao jantar. Era cedo. Muito cedo. Jacinta sabia que o gato se aguentaria quieto durante o tempo em que ela estivesse deitada. Ele não compreendia que a dona viajava. E caminhava para trás.     

   Quando tinha sede, refrescava-se alegremente na água que atravessava a pele daquela paixão. Mar teu. Rio nosso. E tinha sede os dias todos. De pisar a areia. De rebolar na ternura das vozes que entardeciam na traineira. Da correria do mel. E de ir à fonte. Dos cântaros empoleirados na cabeça das mulheres. Da alegria do canto. Das quadras de rimas naturais. Bebia. E embriagava-se numa bebedeira consentida com copos de poemas. Do lado de lá, não era preciso mais nada. Tudo chegava. No sublime encanto das oportunidades repetidas, ouvia tranquilamente o silêncio do azul. E voava ao ritmo do bater das asas das cegonhas que corriam para os ninhos elevados na chaminé da escola. Imaginava-se um pássaro livre que bebia silêncios.

   Jacinta sentia-se refém do nevoeiro e do mar. E daquele beijo de despedida. Num instante em que o que mais queria era sol. Não podia. O Instituto de Meteorologia, antevira nevoeiro intenso que se iria dissipar ao longo da tarde. No dia seguinte, o Sul continuaria com neblina intensa.

   Numa descida acelerada, todos as gaivotas correram para o mar. Numa histeria coletiva, num bando improvisado estenderam-se à beira-mar. E apregoaram o feito com gritos cansados. E tornaram com os mesmos movimentos nas asas. E queixaram-se de não ter tido tempo para brincar.

- Bom dia, princesa! Ainda de robe?

- Visto-me num instante. Espera um pouco…

- Jacinta?

- Hum?

- Está bem…

   No tempo das papoulas vermelhas, ela não se atreve a procurar o mar, pensou Beatriz. E sentou-se.

- Teimosa, como é, não sei… De certeza que leva o rio…Ou o tempo. As asas e o azul.


(fotografia de Hugo Colares Pinto)




2 comentários:
De filipinha22 a 9 de Fevereiro de 2013 às 05:30
Que bonito o que escreveste!! Palavras todas elas cheias de um sentimento enorme,adorei e fiquei encantada com o que escreveste,é bem bonito!!


De Paola a 9 de Fevereiro de 2013 às 14:24
Obrigada.
Beijinho e bom fim de semana.


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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]
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