Sábado, 8 de Junho de 2013

Da janela não se via o rio...

 

 

A minha janela não se abria para o mar. Nem para o rio. Era uma janela pequena, com duas metades envidraçadas. Agarravam-se à parede com dois ruidosos ferrolhos. Pela manhã abria-a. E de imediato entrava o canto dos pardais. E o areal que se alongava até à fonte. Para o lado esquerdo, os pinheiros. As murtas e a carqueja abraçavam-se no branco das bagas. No amarelo das flores. O baloiço rangia as cordas empurrado pelo vento. Por vezes, subia até às carumas e caía. Para recomeçar outra vez. Um pinheiro manso e suave. A copa densa e ampla arredondava-se em forma de chapéu-de-sol onde eu cabia inteira.

Não me importava que a janela não se virasse para o mar. Porque o rio entrava pela porta. Dava a volta à casa e estendia-se no areal. Brando como a sombra do pinheiro. O rio não cabia na janela.

Já não existe a janela. Nem a porta. É por isso que o rio também desapareceu. Agora, apenas corre livre pelo meu corpo. Recuperado da minha infância.




(Foto de Meninas para sempre)



4 comentários:
De jabeiteslp a 9 de Junho de 2013 às 09:52
Encanto teu de assim saber escrever...


Xoxo e um belo e feliz domingo


De Paola a 9 de Junho de 2013 às 11:31
Também para ti, um lindo fim de semana.

Beijinhos.


De pimentaeouro a 9 de Junho de 2013 às 16:15
Prodigiosa a memória, bela a escrita.
Gostei.
Cumprimentos.


De Paola a 9 de Junho de 2013 às 17:56
Obrigada. Bom domingo.


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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]
Page copy protected against web site content infringement by Copyscape "Douce l'éternité qui coule des fontaines/ Au printemps quand le vent dissipe les brouillards/ Douce la porte ouverte à l'ombre du grand chêne/ Et douce son odeur dans la soie d'un foulard."

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