Domingo, 17 de Abril de 2016

Ontem [Como se fosse já]

barco.jpgHá dias em que volto ao rio. Para me tingir de azul. E amornar as lembranças que marinheiram ao sabor das marés. Para me segurar ao verde que cai da serra. Rir. E mergulhar nos afetos. Nas correrias assarapantadas dos caranguejos em direção aos juncos que povoavam a margem. A do lado de cá. Na outra está a cidade. As luzes e uma fonte luminosa. E a voz que embeleza avenida com líricas de amor. No entanto, o meu regresso concretiza-se no bote. O doce encanto do momento! É nele que viajo. Que vou e chego. E vejo. Depois percorro as vozes e os rostos que me seguraram. Estabeleço todos contactos. Ato e desato os laços. Mas é em jeito de reclamação que fico. Porque o rio corre para o mar. Onde tudo é água. Como as lágrimas.

Às vezes, não me lembro por onde caminho. Fico por lá. Mas é fantástico! É indispensável que o meu rosto esteja molhado. Pelo azul da água. Pelo sal. E pelo deserto do silêncio. Assim, vejo tudo nitidamente. Como se fosse já.

 


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]
Page copy protected against web site content infringement by Copyscape "Douce l'éternité qui coule des fontaines/ Au printemps quand le vent dissipe les brouillards/ Douce la porte ouverte à l'ombre du grand chêne/ Et douce son odeur dans la soie d'un foulard."

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