Domingo, 10 de Maio de 2009

Assomar [Ai, quem me dera estar lá. E ficar!]

 

 

Em tempos, havia lá...

 
 
 
 

Ai, quem me dera correr para lá. E chegar! Depois, rebolava e ria à gargalhada. Calava-me. Para ouvir os piscos a voar. E invejar-lhes a beleza da cor. A magia da voz. A afinação dos trinados na frescura da tarde. Tão tarde! O domínio apenas existe no nevoeiro da minha visão. Sobram vulcões de urbanidade de alicerces construídos. Os piscos aborrecem-se com os rumores das betoneiras.

 

Ai, quem me dera estar lá. E ficar! Saltitava de flor em flor. Escolhia-as pela cor. Sentava-me. Por estranhar efemeridade. E  abençoar-lhes a fragrância. O apego do caule. A verdade do viço na quietude da manhã. Tão cedo! Agora, as pétalas de cetim perduram pobremente no tacto dos meus dedos. Permanecem chãos de papoilas que eu matizo, se me importuno. Eu aborreço-me com os alvoroços dos jardins.

 

E agora que não estou. Eu sei! Sempre que chovia, eram as papoilas que me abrigavam. Na fragilidade das varetas. No agasalho do pano que olhava para a chuva. Para lhe descobrir o destino. A água esquecia-me e dirigia-se abundantemente para a raiz. Sustento. Eu apenas a honrava. Hoje enalteço-a.  Nua no desassossego quente do Sol. Está escuro e eu olho para lá. E percebo porque tanto gosto da chuva… e de guarda-chuvas vermelhos.

 

[imagem da internet]

 

 

 

 


6 comentários:
De Jorge Soares a 10 de Maio de 2009 às 18:05
Lindo.... adorei.

Tomei a liberdade de te plagiar... vou utilizar o texto no Momentos e olhares...espero que não te importes.



Jorge


De Paola a 10 de Maio de 2009 às 18:11
Nem parece teu!!!! Claro que podes. Eu é que fico toda vaidosa...

Beijinhos, Jorge.


De Graça a 11 de Maio de 2009 às 01:07
Lindo mesmo! Ai quem me dera, também... para o meu lá!


Até amanhã, querida Paola, e um beijo meu


De Paola a 11 de Maio de 2009 às 17:01
Ai quem me dera... E que bom é termos o lado de lá. Sustento. Alento.


Beijo abraçado.


De jabeiteslp a 12 de Maio de 2009 às 14:15

gotas de uma vida
em tantas e tanta vida...

beijinho
o melhor de uma tarde pra ti


De Paola a 12 de Maio de 2009 às 21:31
Gotinhas, amigo, gotinhas...

Beijinhos


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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]
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