Sábado, 16 de Maio de 2009

travar

[prefiro o silêncio à simulação do falar]

 

 

A avenida estendia-se na horizontal. Ondulava aqui e ali. Traições desnecessárias para quem anda sempre no passeio. No lado de cá.

 

Uma aceleração. Outro passado alargado à medida da pressa que não se via. Um grito de criança a reclamar o tempo. Horas que não lhe foram dadas para suicidar o sono que lhe atravancava a vontade. Travagens aflitas nas passadeiras movediças que conduziam para o lado de lá. Uma eufórica buzinadela cumprimentava caminheiros despreocupados. Acenos de fim-de-semana. Desejos expressos no empedrado. Uns subiam, outros desciam. Na ânsia de inventar um domingo que fosse outro dia. Talvez domingo.

 

Nos sacos, viajavam propícias pescarias. Restos de abates carniceiros. Pedaços de hortas e pomares despojados dos frutos. Raízes que tudo fariam para crescer no chão. Penduradas na terra. Trapos e farrapos roubados ao pregão. Carteiras gordas de tempo. E de mês. Bolorentas de esperança. Filas de alívios e dores. À porta da farmácia. A meio da avenida. Do lado de cá.

 

As bocas repetiam-se na mesma fome. Os corpos rezavam as mesmas pisadelas. As crianças brincavam, desinteressadas das nuvens que pressentiam a chuva que não acontecia. Ali, na avenida. Olhavam para cima, sempre que passava um avião. E ensaiavam a partida. Encetavam a fuga pelo ar. Na terra, a avenida prolongava-se no limite do interrogatório. Os carros chiavam travagens exaltadas. E as crianças insistiam em crescer na avenida. Tanto! O assunto da conversa não era outro. Aquele. De ontem a hoje.

 

No congestionamento da conversa, a dor alastrou. O corpo piorou. E o silêncio intentou a caminhada. De cá para lá. Pela avenida. Destravou!

 

 


13 comentários:
De umbreveolhar a 17 de Maio de 2009 às 15:59
Como leitor assíduo do teu Blog e vice-versa e devido aos comentários recíprocos que vamos fazendo um ao outro, advém daí daí uma grande amizade, ainda que virtual. É bonito!
Conhecemo-nos através das palavras sempre agradáveis e é assim, o funcionamento dos Blogs...
Mas, não conhecemos a voz e a pessoa que está do outro lado, sendo por isso que amizade não é pessoal!
Eu resolvi, sem qualquer receio, publicar três fotos minhas no slide do template do meu blog, numa perspectiva de " tornar o virtual mais próximo do real" ...
Assim, se os meus amigos e amigas fizerem o mesmo, seria, na minha opinião, muito interessante! Aqui deixo o repto a todos os amigos e amigas adicionados.
Cumprimentos,
Carlos Alberto Borges


De Paola a 17 de Maio de 2009 às 19:47
Não sei, não! Logo se vê... Eu sou assim. Tal e qual.

Beijinhos


De Graça a 17 de Maio de 2009 às 19:33
O que tu fazes com as palavras é algo que eu gosto... afinal, também servem, metaforicamente, para recolher e esconder significados.

E tanto se passa numa avenida... ao sábado...


Beijo meu, querida Paola


De Paola a 17 de Maio de 2009 às 19:45
Afinal, sou tão transparente... na avenida, ao sábado. Como vês, as minhas palavras para nada servem! Desnudaram-me... e eu que as fiz agasalho...

Beijo abraçado, minha amiga.


De jabeiteslp a 18 de Maio de 2009 às 15:04

bela avenida
ou antes querida ?
num belo olhar de momentos encontrados...

o melhor de uma boa semana pra ti
jocas da Covilhã


De Paola a 18 de Maio de 2009 às 18:48
Uma avenida... um percurso... um caminho, como tantos. A vida... vivida num sábado pela manhã. Às vezes de lado de cá, outras do lado de lá... É só.

Boa semana.

Beijinho.


De Nilson Barcelli a 18 de Maio de 2009 às 18:24
Adoro a condução desenfreada que fazes das palavras, de vez em quando até com a faca nos dentes...
Deves ser multada frequentemente... por excesso de velocidade, manobras perigosas, etc.
Mas eu gosto. Dás trabalho aos leitores na descodificação, que nunca terão a certeza de que lado da avenida tu estás, ainda que o assinales com bandeiras bem altas. Mas eu acho que estás do lado de onde se vê o sol poente. Ou seja, a tua visão, que não a condução, poderia ser melhorada se visses o sol a crescer...
Boa semana, beijo. Do lado de cá, mas com uma guinada de 90º para a direita...


De Paola a 18 de Maio de 2009 às 18:45
Na avenida acontece tudo... ou nada! Talvez, esteja no olhar... depende da perspectiva... do lado que se vê... Num Sábado de manhã de compras...de encontros e reencontros... de pressas... de gritos... Sabes, meu amigo, escrevo porque sim... mesmo havendo uma pontinha de "verdade" nas minhas historietas, elas são sempre "adulteradas" pela subjectividade, pela ambiguidade, pela pluralidade de sentidos... mascaro-me [ou não] nas palavras que escrevo... porque sou assim!

Boa semana.

Beijinhos


De Paola a 18 de Maio de 2009 às 18:57
Voltei! "Do lado de cá, mas com uma guinada de 90º para a direita... " Não me apanhas!! Do lado de cá, mas com uma guinada para a esquerda... É tudo uma questão de perspectiva, vês?

Beijinho


De Nilson Barcelli a 18 de Maio de 2009 às 19:02
Ai foges...?
Afinal também sabes fazer condução defensiva... eheheh...
Mas eu também sei ir à volta... mas nem sei se o sentido é proibido...
Beijo


De Paola a 18 de Maio de 2009 às 19:11
Não fujo, não! Eu sei que sabes. Escusavas de dizer, eu já percebi!!!!! Na defensiva e respeitinho pelos sinais [não há proibidos, nem de sentido único]...

Beijinho


De Emília a 18 de Maio de 2009 às 19:27
Porque o Silêncio é uma forma de comunicação entre os que estão do Lado de Cá, foi em silêncio que apreciei os silêncios dos que, na avenida, vagueiam de Lá para Cá.
Parabéns pelo(s) texto(s).
Rouban-no Tempo ao Tempo pelo prazer de os ler.
Beijo
Emília


De Paola a 18 de Maio de 2009 às 19:47
Tão bom ter-te do lado de cá!!!!! Aqui... ali... acolá... e mesmo no silêncio das palavras, ter-te para mim...

Beijinho terno


Comentar post

Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]
Page copy protected against web site content infringement by Copyscape "Douce l'éternité qui coule des fontaines/ Au printemps quand le vent dissipe les brouillards/ Douce la porte ouverte à l'ombre du grand chêne/ Et douce son odeur dans la soie d'un foulard."

pontos recentes

Ontem [Como se fosse já]

Desacerto [desabafo de um...

A outra margem [restauro ...

Oportunidade

Palavras pequeninas [E cr...

O rio

Sardinheiras

No lado contrário

Gola de laço

A conversa das canções [a...

Convento de Jesus [no tem...

Água do rio

Pelo caminho [as cegonhas...

No tacho [da minha infân...

Memória

RSS

outros pontos

Admiro-me... só por olhar!

Locations of visitors to this page

Pesquisar neste blog

 

Abril 2016

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


SAPO Blogs

últimos comentários

A "fonte" é dada a narrativas extraordinárias...
Pois é...
Sabes uma coisa "pequenina"? Continuas a escrever ...
Por vezes, é assim...
Escrita poética Gostei.
Pois, sabe bem ler as tuas palavras... saudade.
Que lindo!! Como sempre, uma escrita deliciosa...U...
Bela e feliz noite de Natal Bonita
Pena que um piropo teu...não seja um bom diaaqui ...