Sexta-feira, 12 de Junho de 2009

cantar [o sabor das asas no telhado]

 

fotografia de  Gabriel Gonzalez

 

 

 

 

Em cima do telhado, restolhavam trinados amarelos. A manhã trauteava réstias de Sol, com uns brincos de oiro pendurados nas orelhas. Os rubis refulgiam vermelhos incendiados. E ele esvoaçava de uma telha para a outra. Pulando como quem expulsa medos. Para, abundantemente, conservar a paixão. E cantava. O pássaro desafiava regozijos alegres. De uma telha para a outra. Sem ousar saltar para o outro lado da estrada. E olhava. De seguida, cantava. Ornatos musicais. Andamentos em sol maior.
 
Por baixo do telhado, um som. Música tónica e robusta. Martelo ritmado no aconchego das tábuas. Uma serra serrava. Ia e vinha, num vaivém semeado. E voltava ao princípio. Corrigindo imperfeições. Ouvia-se o gesto que martelava descontentamentos. Queixumes de satisafeitas canseiras. Da boca escorriam suores admirados. E as mãos amaciavam obras liquefeitas. Pressentia-se o ardor dos dedos que lavravam a madeira, na recusa da cola. Bebia-se o consolo de evitar os pregos. O carpinteiro sabia. E não queria rachaduras que fragilizassem a construção. Persistia. Na roda da água. Que bebia por baixo do telhado. No silêncio que brilhava quando o carrossel girava. E o pássaro gorjeava que o homem parara. Simplesmente contemplava.
 
Do outro lado da rua, um pássaro voava... Edificou um ninho no beiral inclinado da confiança e adormeceu a ler o poema. Então, cantou.
 
 

13 comentários:
De jabeiteslp a 13 de Junho de 2009 às 21:37

"no beiral da confiança
e adormeceu a ler o poema..."

maravilhas tuas...

beijinho
desculpa este afastar de tudo
mas sofro de nem sei o quê...
crises minhas...


De Paola a 13 de Junho de 2009 às 21:46
Vamos lá a ouvir o passarinho que canta num beiral de confiança, amigo. Lê um poema e canta também...

Vamos, lá!
Beijinho


De jabeiteslp a 13 de Junho de 2009 às 21:58



De Graça a 13 de Junho de 2009 às 22:45
Bem, estou furiosa... já comentei e não ficou... qualquer coisa do tipo de não estar operacional:((. Quer dizer, uma pessoa faz mais de 400 km e vem ler-te, calmamente, e depois está corrompido???

Volto depois, quando estiver mais calma :))).


De Paola a 13 de Junho de 2009 às 22:48
Ai, amiga, calma. Trava! Pronto, ao menos sei que chegaste. Bem. E estou contente...

Beijo abraçado.


De Graça a 13 de Junho de 2009 às 23:42
Adorei aquela parte do carpinteiro. Quase uma metáfora da escrita.

Bem, muito mais calma... adormecer a ler um poema? Terei de experimentar... agora, posso garantir-te que os teus textos nunca dão sono, são antes um bom exercício à descoberta dos sentidos. Apetece cantar, querida Paola!


Um beijo meu para o teu domingo


De Paola a 13 de Junho de 2009 às 23:50
Quase isso... O "carpinteiro", amiga, fez o [não "um"] poema para o passarinho que está a cantar no telhado, viste-o?

Que saudades eu já tinha dos teus mimos, doce amiga.

Beijo abraçado.



De Rosa Maria a 14 de Junho de 2009 às 02:49
...e o prazer que recebo quando leio os teus trachos em voz alta ..... com os sons cadenciados à porfia com o saltetar do passarito no telhado!


De Rosa Maria a 14 de Junho de 2009 às 02:51
ahahahaha ...reli agora ...."trachos" ....é o sono!


De Paola a 14 de Junho de 2009 às 11:05
... adorei! Não sei... "trachos" soa-me a tachos... comidinha, sabes?

Beijinho


De Paola a 14 de Junho de 2009 às 11:02
Desejo, amiga, que o "passarinho" tenha cantado uma bela canção... que o tenhas ouvido a saltitar...que a sua candura tenha adocicado essas noites de dores...

Beijinho


De TiBéu ( Isa) a 15 de Junho de 2009 às 15:26
Simplesmente adorei. Parabens


De Paola a 15 de Junho de 2009 às 16:54
Que bom ter "provocado" um pedacinho de "prazer"...

Obrigada por teres vindo.

Beijinho


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