Segunda-feira, 20 de Julho de 2009

saborear [na rampa do meu passado]

No lado de lá, há um vale que descansa no verde. Declives suaves abrem-se a trilhos de matos caminhantes. Do moinho atingido pelas mãos do esquecimento até aos campos de pão. Predominam manchas de arvoredo. Tão verde que o vento resguarda as tintas que se aprumam no temperamento da natureza. E só para disfarçar, Éolo entoa trauteios vistosos. Rebola-se nas flores. Empoleira-se nas pontas das árvores. Ri à gargalhada. Por vezes, é tanto! Uivos de lobos famintos. Berros de telhados apavorados. Brados de árvores agitadas. Apenas as flores dançam ondas de contentamento num ritmo exagerado. Os seus corpos modelam-se na técnica de enxotar o medo. E rodopiam. E também elas riem à gargalhada. No vale. As nuvens fogem. Apavoradas. As gaivotas grasnam o mar que perderam, ao mesmo tempo que as andorinhas trinfam negras incertezas sobre a primavera. Sem perceber a razão do vento ofegar assim, num acalorado dia de verão. De longe, chega a onomatopeia diluída dos cães. Os gatos arrepiam-se ao colo dos donos. Na esquina do outro lado.

 

Hoje, havia verde. Excessivamente muito. Frondoso. Fumegante. Uma leve brisa desenrugava uma ou outra folha ensonada. Espreguiçava as flores que se aplaudiam na encosta da colina. Até ao vale. Subi a rampa e perdi-me no contemplar. Enxotada pelo zumbido de uma abelha com asas de mel, tropecei nos sabores da minha infância. E voei para lá, montada nas tílias do tempo. Para comer amoras silvestres. Das silvas. No baldio da minha saudade. Passadas largas chegaram da flor ao fruto. Do verde ao vermelho. Negras. Tão negras! A cada dentada, a minha vontade desfazia-se na língua da minha memória. Esqueci o vale. Ignorei o vento. Comi sabores de antigamente. E lembrei-me de tudo. De mais.

 

As amoras, que hoje merendei, tinham um esmagado travo a doçura… na míngua do gosto da minha meninice. Nem me recordo se tinham paladar… mas lembro-me do sabor da ausência das mãos… do aroma espalhado pelas amoras das silvas… Sepultei, no chão fértil do vale, pedaços de folhas verdes que o vento afastou… na palidez da minha fome.

 

 

 


12 comentários:
De Graça a 20 de Julho de 2009 às 17:24
"E voei para lá, montada nas tílias do tempo"... porque, no meu passado, também há sussurros de tílias e amoras, tantas, negras... e amores silvestres, desfeitos na língua da minha memória. Só as andorinhas não trinfavam... esse mar amado chegou mais tarde.


Boa tarde, minha querida, adorei o teu texto... cheio de tantas saudades... que acordaram as minhas!




Beijo meu  


De Paola a 20 de Julho de 2009 às 18:00
A Hera assustou-se com o linguajar do vento... e eu, minha amiga, respondi ao apelo das silvas... e fui. Comi tantas!!!

Beijo abraçado. Assim.


De jabeiteslp a 20 de Julho de 2009 às 21:44

amoras
há tanto tempo que não saboreio
mas de contrapartida
comi arroz doce
de palatino sem igual
que nem o Éolo estragou no seu devanear
por mais que se esforce o seu ventar...


mas num aparte
devo informar-te
de quão afrodisiacas são
as amoras
que já de seu nome jus fazem
e um rubor sem fim às donzelas assim...

beijinho
tou assim acastelado...


De Paola a 20 de Julho de 2009 às 22:30
Bom! Entre o arroz-doce e as amoras... fico a pensar... Fico com os dois, sim? Tão divinos... tão cheirosos... Hoje, fiquei-me pelas amoras...

Beijinho.


De jabeiteslp a 20 de Julho de 2009 às 22:35

gulosa...



De Paola a 20 de Julho de 2009 às 22:47
sim...


De Jorge Soares a 20 de Julho de 2009 às 23:22
Vou dizer ao teu pai que já namoras!


As tuas palavras fizeram-me voar no tempo por entre silvados e prados verdes pintalgados de flores e de vida....


Beijinho e obrigado!
Jorge


De Paola a 20 de Julho de 2009 às 23:31
E são, amigo, coisa cada vez mais rara... Estas amoras fantásticas já estão condendas... Um dia destes vão morrer às mãos do "progresso"... ali vão nascer umas casinhas... e muito alcatrão...

Beijinhos.


De Rosa Maria a 21 de Julho de 2009 às 19:51
adoro amoras sivestres, quando as há, como mesmo sem lavar!


De Paola a 21 de Julho de 2009 às 21:14
Oi, amiga, cá eu fiz o mesmo... foi apanhar e comer.

Beijinhos.


De Nilson Barcelli a 22 de Julho de 2009 às 18:35
Se eu fosse realizador de cinema, faria um pequeno clip com a leitura do teu texto por entre uma bonita música de fundo e as excelentes imagens que as tuas palavras sugerem.
Seria fácil com um suporte desta qualidade.
Parabéns, querida amiga. Brilhante.
Beijo.


De Paola a 22 de Julho de 2009 às 18:44
... a música seria a do vento... com solos de poupas, de melros e de piscos... de vez em quando ouvia-se o coaxar das rãs... No final, ouvir-se-ia o assobio autoritário do meu pai... e a corrida ofegante de uma menina, morena, de longos cabelos encaracolados...

Fizeste-me ir... e eu fui... Obrigada.

Beijo terno, querido Nilsson.


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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]
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