Terça-feira, 15 de Setembro de 2009

esvaziar [no fortuito das notícias vazias]

 

O roxo alastra-se pela alegria do vinho. Num copo descansado no alabastro do desconforto. O jornal cai pelo chão, enrugado pelo fortuito das notícias vazias. Nuas e rugosas. O vinho revela-se equilibrado. Tinto ou branco. Não te importa a cor. São os teus olhos que perco na contemplação do tempo que escorrega pela ladeira de sardinheiras vermelhas. A rolha salta. Uma atrás da outra. O copo rompe-se boquiaberto com os exageros dos postigos. As velhas benzem-se e falam rezas junto aos retratos pendurados nas sombras que pingam pelas paredes brancas da privação. Comem a solidão com bocados de comprimidos sem reputação. A cor geme a ausência da luz. E as memórias de silhuetas incertas definem-se no luto dos vinhos.

 

E tu seguras com o olhar as descalçadas paredes do quarto. Sentes a ausência das lágrimas que te imunizam o rosto e acreditas que os gemidos moribundos da tua pele saram num copo de uvas tintas. Ou brancas. Não te interessa a cor. Preto. Às vezes, começas a pensar. Hoje, pensaste pouco. Não tiveste tempo para meditar. Agonizas na embriaguez que seguras à mesa. Sozinha. Ergues o copo e garantes que, sempre que podes, usas o tempo como queres. Mesmo que na lucidez da violácea linguagem vislumbres a bebedeira do relógio. Que se bamboleia na parede em frente. Por cima de ti.

 

 [imagem da internet]

 


4 comentários:
De Graça a 18 de Setembro de 2009 às 00:08
Já li este texto tantas vezes, que quase o sei de cor! Só não o sei comentar... para além da banalidade de dizer que adoro o que escreves, em qualquer registo.


Acho que saio, assim...




Um beijo, minha querida Paola [vi-te há pouco no meu palco... há muito que não te sentavas por lá... é o que dá ser agricultora :))]


De Paola a 20 de Setembro de 2009 às 14:36
O tempo confunde-nos...

Beijo. Abraçado.


De Sónia Pessoa a 20 de Setembro de 2009 às 00:38
Amiga, deixo-te um beijinho. Ler-te é sempre um prazer... bom domingo


De Paola a 20 de Setembro de 2009 às 14:37
Querida Sónia, que bom ver-te por aqui. Também para ti, um excelente domingo.

Beijo.


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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]
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