Domingo, 20 de Setembro de 2009

Ler [no beco dos postigos amarelos]

No amaraledado de uma tarde banal. Azeda e fria, apesar do Sol que teima em caber nos quintais. Agradecem as árvores. Num ritual de nudez acalorado. Benzem-se as velhas em cruzes ziguezagueadas de dedos calejados. Raivas apodrecidas na lavoura da miséria. Praguejam exasperos ao Sol que demorou. Mesmo que em rodilhas esfarrapadas pelo beco dos postigos amarelos. Evidentes. Para que o rio lhes inunde o tempo. E as ondas arrombem os gritos aflitos que o tempo amansou. Porque escasseia numa míngua de acenos doentios. São cinco horas nas badaladas estúpidas da parede. As palavras emaranham-se nos objectos de outras histórias. E fogem pelas portas semi-abertas com postigos amarelos.

 

Um livro jaz na prateleira. Ao fundo do corredor. À direita. Escreve-se em folhas descoradas. Abandonadas na interrupção da leitura. Há muito que ela deixara a casa da avó. Esqueceu-se. Os poemas escorregavam pela badana da contracapa. Do fim para o princípio. Analfabeta de letras. Tanto lhe fazia. Mas gostava do cheiro do livro. Do pó que pingava e que se enliçava nas mãos. Fingia que lia. E sentia-a ali tão perto. Carícias. Mais um beijo. Tantos. E chorava a ilusão no papel. E o rio aquietava-se num silêncio profundo. Num minuto de sossego conivente. Apenas um barco passava. Porque os barcos passam. E numa derrapagem de versos sentou-se à mesa e leu o livro. Todo. Do princípio para o fim. Sem uma lágrima. O rio retomou a corrida para lá. O postigo encostou-se. E dorme tranquilamente. Numa cama de ferro. Com maçanetas que limpa aos sábados com celarina. Ou celerina. Apenas ouvia a palavra enrolada aos jornais. Ao domingo brilham mais. Os lençóis são brancos. Com pontas de arquitectura rendilhada.

 

Meia noite de vento expressivo. Uma madrugada de chuva miudinha. Eloquente. Memórias de um poema que se escreve na ausência das tuas mãos.

 

 


11 comentários:
De Jorge Soares a 20 de Setembro de 2009 às 23:36
Bonito... já estava com saudades das tuas letras...


Boa semana amiga


De Paola a 21 de Setembro de 2009 às 23:05
Beijinho, amigo. Obrigada.


De Graça a 21 de Setembro de 2009 às 19:54
Os livros têm esse poder... de também ser companhia... de também ser lembrança. Mais um texto que podia muito bem figurar num livro.


"São cinco horas nas badaladas estúpidas da parede."_________ hora do chá :), para lavar a alma.


Beijo muito meu... 






De Paola a 21 de Setembro de 2009 às 23:06
Ai, amiga... as coisas que tu me dizes!!!

Beijo. Abraçado.


De Eduardo Aleixo a 21 de Setembro de 2009 às 22:49
Obrigado pela leitura que me permites. Escreveste um texto muito forte. Muito poático. Nem imaginas como adorei! Chega a ser trágico, mas é belo como a vida. Identifiquei-me com o texto e o seu modo. Gostei imenso, amiga. Escreves muito bem! 


De Paola a 21 de Setembro de 2009 às 23:07
Querido Eduardo que mimo me deixaste! O poeta és tu, eu lanço emoçoes de mim... assim.

Beijo terno.


De Eduardo Aleixo a 21 de Setembro de 2009 às 23:35
Beijo terno meu para ti.


De umbreveolhar a 22 de Setembro de 2009 às 23:18
Amiga Paola,
Mais um texto em prosa com que brindas os teus leitores fiéis, nos quais eu me incluo.
Um livro com um grande poder de inspiração. Tudo é interessante neste fantástico texto.
É por isso que eu gosto da blogosfera, sem ela não conheceria as pessoas que são dotadas para a escrita e para a amizade.
Cumprimentos do Amigo,
Carlos Alberto Borges

 


De Paola a 23 de Setembro de 2009 às 22:25
Obrigada, Carlos, pelo afecto que me deixas nas tuas palavras.

Um beijinho para ti.


De Nilson Barcelli a 23 de Setembro de 2009 às 19:48
Delicio-me com a tua prosa.
Poética e de grande qualidade estética.
O poema que escrevi (o da gravata e do verniz), como é óbvio, não se aplica ao teu caso...
Querida amiga, um beijo.


De Paola a 23 de Setembro de 2009 às 22:29
Eu? De gravata e verniz? A gravata tem nó... o verniz estala...Hum!!!! Prefiro o ser ao parecer...

Obrigada...
Beijo, querido Nilson.


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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]
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