Quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

reler [longe do beco dos postigos amarelos]

 

fotografia de Jorge Soares

 

Meia noite de vento expressivo. Uma madrugada de chuvamiudinha. Eloquente. Memórias de um poema que se escrevia na ausência das suas mãos. Na paginação de um sono reescrito nas páginas ímpares. De uma noite assustada.

 

 

O Sol entrava aceso pela janela. Quieto. Seguro. Afastava os cortinados acetinados. Castanhos. Da cor do chocolate. Doce. Com o mesmo sabor a laranja que conhecia das mãos da avó. Entrava na cautela da perturbação. Generosamente. E pulou para um quarto amplo. Livre e com a frescura das laranjeiras que sabia de cor. Desde a infância. Havia aquela, ali, mesmo junto à figueira de figos amarelos. Debicados pelos pássaros que se atreviam a voar tão alto. O quarto suculento erguia-se no orgulho da antiguidade. Uma narrativa extensa. Uma saga de gerações com nome. Os outros desmoronaram no branco das paredes. Sumidos pelas frechas matreiras das portas que o fluxo dos dias aparelhava. Uma cama de ferro. As gavetas com incrustações de pau-preto numa cómoda, ao fundo. Puxadores de lágrimas. Os tapetes lambiam o chão que flutuava na berma da saudade. O candeeiro caía do tecto. Desfazia-se na dávida da iluminação. Branca e transparente. E ela espreguiçava tristezas amotinadas na teimosia. O sol ardia no desassossego da hora. Sem saber se era tarde ou cedo. Apenas tempo. E o cheiro a pão arredondava-se por ali. Conseguia lembrar-se do sabor da água-mel com que adornava fatias de prazer. A cafeteira estava na cozinha. Fervilhava os aromas da manhã. A rapariga rolava na cama as inquietudes da distância. E o Sol amarelo galopava por ali. Assim. E ela via. Longe. Tão longe de si. Um frio esquivo mirrava-lhe os dedos. Não esboçava um gesto. Apenas se perdia na horizontalidade do tempo. Um cadeirão reclinava-se na leitura de um livro… de poemas. Lido do princípio até ao fim. Na fé que as palavras abafassem as intempéries.

 

Lá fora, no beco dos postigos amarelos, as velhas desfechavam as portas. Diziam bom-dia. E os narcisos amarelos floresciam até ser tarde. Depois, atiravam os desgostos para a mansidão das pedras. Desenhavam, no empedrado da subida, a aflição agnóstica de serem gente.

 


5 comentários:
De Jorge Soares a 24 de Setembro de 2009 às 09:17
Olá


Gostei.. muito




De Graça a 28 de Setembro de 2009 às 10:34
 Bom dia, Lídia. Gosto de vir ler-te, como sabes. A tua escrita encanta-me, mas nem sempre sei comentar... [e ainda estou em recuperação... que vai ser lenta :))]




Beijo meu e até logo.


De Paola a 30 de Setembro de 2009 às 16:07
É bom saber que estás por aí... mesmo que não te enconte.

Beijo abraçado.


De Eduardo Aleixo a 1 de Outubro de 2009 às 00:15
Já te disse que gosto de te ler. A tua prosa é poética. Esta deixou-me a boca a saber ao sabor da agua-mel ( da minha infância ) e  deixou-me ver a cor amarela de que tanto gostas, e eu a vi, deitado na cama de ferroa da minha avó...
Obrigado.


De Paola a 1 de Outubro de 2009 às 20:59
Querido Eduardo, as fatias de pão barradas com água-mel que tenho na minha memória têm o sabor alegre das mãos da minha avó...


Beijo terno, amigo.
Obrigada.


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