Sábado, 3 de Outubro de 2009

cair [na luz postiça de um candeeiro descorado]

 

de Jorge Soares

 

 

 

Ela segurava o mundo numa mão. Afagava-o com a outra. Com as duas, desordenava os sentimentos. Então, pôs-se a pensar. E não percebeu nada. Enleou-se no corpo amputado de um amor verde. Intenso na lealdade do rio. As palavras escorriam pelas paredes cansadas do dia. Era tarde. Tão tarde, naquela tarde em que o pôr-do-sol foi o discernimento. O limite de um alvoroço adocicado. A foz. O grito do rio que se arromba no mar. Agudo. Doído na inevitabilidade do seu correr.

 

Hoje, a tarde ainda é mais tarde. Ao fundo, não discerne os vultos que lhe vestem a memória. E o seu corpo estremece de paixão. Envolve-se nela. Ousa querer saciar a sede com que acordara. O vento trouxera-lhe a sinfonia dos pardais. E ela ardeu no impulso do voo.

 

Hoje, no instante em que os seus olhos se tocaram, ela ouviu os pássaros. Que chilreavam no telhado. E teve a certeza que há rios que não desaguam no mar. Porque correm ao contrário. No silêncio do Sol.

 

 


4 comentários:
De Graça a 4 de Outubro de 2009 às 00:57
Sabes... por vezes, também ouço os pássaros e sinto o silêncio do Sol. 


 Como comentar estes teus tesouros literários??? Não sei... apetece-me correr ao contrário :)). 


 Beijo imenso em ti, amiga minha


De Jorge Soares a 5 de Outubro de 2009 às 23:59
E agora fazia um novo post... porque tu consegues dar alma Às minhas fotografias.


Um enorme beijinho e uma boa semana
Jorge


De Nilson Barcelli a 6 de Outubro de 2009 às 23:19

Vejo quase todos os dias um rio a correr ao contrário... mas já percebi que anda ao som da lua, que lhe dá música para ele se baralhar... o mar também ajuda... empurra-o para a nascente...
Comentar a excelência dos teus textos não é nada fácil. As palavras escorrem-me até ao chão e não tenho força para as levantar. Nem com a ajuda da grua da imaginação...
Querida amiga, um beijo.


De Graça a 11 de Outubro de 2009 às 15:17
passei por passar, sabia que nada de novo havia por aqui... vou ler-te para outras bandas [in english?]:))).




[fui votar... à minha cidade, acho que o João me perdoa :)))]


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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]
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