Segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

Anoitecer [… e a luz apagou-se repentinamente]

de Clara Susana

 

 

 

A noite chega morna. Olhos negros atrapalhados. Cabelos soltos. Adornos de prata na negrura com que se ilumina. Os braços carregam os festejos do dia. Não há sinais de cansaço. Cumpre-se  no rosto do rasto do tempo.

 

Pela parede branca. Suja. Tão rota de riquezas. Escorregam réstias de luz. Pobreza aborrecida na divergência do chão. Uma janela. Opaca. A luz! Sento-me a olhar. Descanso o corpo. Canso a ilusão de saber. E quero. Duvido. Sim. Não me entendo. Nunca mais. A luz escorre pela parede. E a janela não mostra. Fico na desimportância do que não vejo. A noite corre. Uma mesa. Uma sopa quente fumega tranquilamente. Pão, talvez queijo. Um copo dança na arritmia dos corpos. Aquece a luz. Faz frio. O vento. Não, não vai chover. Há noites em que não chove. Gargalhadas impostoras. Estão cansados. Despidos. Afectos que cumprem rituais. Horas. E o tempo agarra a noite. Jura-lhe que o dia será a seguir. Assim. Na sismicidade do hábito. Um cigarro. Ainda não. Os corpos esgrimem cansaços. O dia foi grande. Calor. Este calor serôdio. Encardido. Enfeitado.

 

A luz permanece na parede. Pobre. De vez em quando, esgares amarelados. Claridade vazia. A janela espreita pela impenetrabilidade de vidro. Tudo acontece. Não sei. A luz agonia no branco-sujo das paredes. Lá dentro, a luz apagou-se repentinamente. Está frio cá fora. Enorme é o medronhal cujo aroma já esqueci. Onde os piscos não  podem voar. Grande é a noite em que penso que não penso… encadeada na opacidade da luz.

 

 


6 comentários:
De Jorge Soares a 13 de Outubro de 2009 às 08:59
Estamos num Outono estranho, breve a luz e o calor serão saudade e esperança de um novo renascer...


Belo texto amiga... já sentia a tua falta por cá.




De Paola a 17 de Outubro de 2009 às 16:16
Pois é... estamos neste Outono tão estranho...

Beijo amigo, Jorge.


De Graça a 14 de Outubro de 2009 às 23:06
 Mais um texto de ti, numa intertextualidade de tempos e sentires... também eu tinha saudades de te ler por aqui.




Beijo abraçado.


De Paola a 17 de Outubro de 2009 às 16:17
Às vezes sai... assim...

Beijo abraçado.


De umbreveolhar a 17 de Outubro de 2009 às 16:28
Paola,
É grande o prazer que sinto por verificar que  " regressaste" e com um belo texto em que descreves aquilo que te vai no pensamento.
Até eu já sinto saudades do rio Tejo!... E coisas que se passaram perto dele...
Bom fim de semana com tudo de bom para ti,
Carlos Alberto Borges


De Paola a 17 de Outubro de 2009 às 16:34
Obrigada, Carlos. Não perdeste esse teu jeito simpático... Ah, o meu rio não é o Tejo - mesmo que o veja da minha janela. O "meu rio" é o Sado... é nele que navegam as ondas da minha infância.


Beijinhos.


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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]
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