Sábado, 7 de Novembro de 2009

abraçar [um momento de saudade]

A menina saiu da escola nuns sapatos abotoados na pressa. Alta na desenvoltura dos seus verdes anos, arrastava um sorriso da cor dos cabelos. Que o vento puxava. Com carinho não fosse a menina sentir. Bonita. Com a beleza que a idade lhe dava.

 

Corria determinada. Passadas doces estrondeavam tédios e algazarras que não cabiam na mochila espessa de pesos acarretados todos os dias pela manhã. Mas moída. Ouviam-se as dúvidas ofegantes que lhe corriam pelo rosto corado. Tanta pergunta para tão pouca resposta! E a menina encostava-se, enfadada, à parede. E os seus pés escorriam até à rua. Depois, ausentavam-se pelo discurso do portão. Sonhou com ele. Sem que lhe descobrissem o desvario. Um beijo num abraço minguado. E riu-se da inveja das outras. Sentiu-lhe os dedos que percorriam o seu cabelo da cor do trigo que germina nos campos da mocidade. Lá em baixo, à esquerda. E lembrou-se do passeio à beira do nada. Que lhe pareceu tanto. E sem que ninguém visse pendurou-se no pescoço dele. Pediu-lhe que a tirasse dali. Que a parede estava fria.

 

Já na rua, correu na direcção de um carro que a esperava. Com a saudade nos braços que se lhe estendiam. Descaradamente. Ridículo, apostrofava. Um abraço, dá-me um abraço. Aqui não!!!! Na escola? Ridículo! A mãe recolheu os braços. Como um mastro que se acanha à passagem do vento.

 

Subitamente, senti frio. Naquele lugar público bafejado pelo sol de início da tarde. Olhei para dentro de mim. Faltavam-me os braços que em tempos se entretinham com os meus. E me abrigavam do frio. Naquele lugar, o meu rosto foi um gesto. Atónito à procura de tudo. Um riacho de luz. O tecido dos afectos. Ela. E as mãos que se interromperam no momento do afago. Perfeitas no tecer.

 

 


3 comentários:
De Graça a 8 de Novembro de 2009 às 13:44
Deixo-te um abraço, nesta saudade de te ler. O texto traz a qualidade de sempre, que conjuga as memórias com o sentir actual. Eu gosto... tanto. Pena estares cada vez menos, aqui e lá, no meu "palco" :)________.




Beijo, querida Lídia, e até amanhã.


De Graça a 8 de Novembro de 2009 às 13:46


De umbreveolhar a 16 de Novembro de 2009 às 21:48
Paola,
Belo texto. A saudade sempre presente e a actualidade também!.
Eu tenho saudades dos teus comentários, não pelos comentários em si mesmo, nas a falta deles leva-me a pensar que algo não está correndo bem.
Desejo  que esteja enganado.. És uma Pessoa que eu muito estimo e por isso desejo-te tudo de bom na vida.
Não é aqui a ocasião para eu me lamentar, mas a vida tem-me pregado váias partidas, algumas das quais refiro no meu blog. Desculpa se fui infeliz neste comentário. Sei que me desculpas.
Até breve e cumprimentos,
Carlos Alberto Borges


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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]
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