Quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

Acender [nas tonalidades do inocente verde dos olhos de Beatriz]

Jorge Soares

 

 

 

 

Agora, para não confundir o dia com a noite, chega olhar. É tão evidente! Erguem-se os olhos famintos de carinhos. Se o azul sobressair, é dia. Se preto, é de noite. Cinzento, não sei. Fico-me na indefinição do tempo. Apago-me na beleza do momento. Contemplo. Se uma bola de fogo arder no horizonte, encolhe-se o olhar. Tolda-se a visão. Engrandece a incerteza. Mas se tantos pontos luminosos se atearem no alto, a crença da noite cresce. Às vezes, não sei. Não posso saber quantas estrelas há no céu. Pesa-me a cabeça. Dói-me o instante. Não os vejo. Na rua, as janelas omitem o brilho que outrora arremessavam para a calçada. As portas fecham-se no cansaço. E as cortinas encobrem a nudez dos corpos. Não há luz. Não vejo as horas.

 

Na pressa que se alonga na calçada, oiço gritos. São sustos. Peles arrepiadas que olham o cinzento do dia. De vez em quando, um afago. São alegrias. Meninos que descobrem o azul, naquela tarde imperfeita. Há dias, em que o Sol é tão infantil! Caminho num passo pensativo. Distante. Outro grito. Não ouvi. Um automóvel afadiga-se em gestos dados. Uma gargalhada canta. Na alegria de um abraço. No aconchego do colo.

 

No outro lado da rua, um pinheiro manso. Agasalha o corpo redondo no bico pardais. Chilreios de tempos frios. Saudosos do Sol que não há. E no cantarolar das aves, perdi-me no trinado de uns olhos esverdeados. E adiei uma lágrima que se calou no silêncio da mágoa que me escorria pelo rosto. Sem me dar conta que pardais não dizem assim.

 


3 comentários:
De Jorge Soares a 18 de Novembro de 2009 às 21:49
Olá


Belo texto amiga, já estava com saudades de te ler.


Jorge


De jabeiteslp a 19 de Novembro de 2009 às 00:42
a beleza de alguem
no olhar de um quotidiano
tambem...

espero não ser o teu
assim triste...

beijinhosImage

 


De Graça a 20 de Novembro de 2009 às 20:51
Mais um belo texto, nesse teu saber jogar com as palavras. Cada frase, uma figuração da linguagem "E adiei uma lágrima que se calou no silêncio da mágoa que me escorria pelo rosto"... as minhas estão, há muito, adiadas :).


Gostei. Muito.
Um beijo em ti, minha querida PaolaImageImageImage


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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]
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