Segunda-feira, 1 de Junho de 2015

Pinheiro [no baloiço da memória]

pinheiro.jpg

Hoje é junho. E eu lembrei-me de agosto. Cálido e morno. Adormecido. Da cor da terra. Da areia que se bambeava debaixo dos pés. Da água morna e doce que corria no rio. No azul que se segurava na minha pele e que me recuso a despir. Exatamente porque não sou criança. Apenas elas conseguem libertar-se da roupa que vestem. E escolher novos modelos, novas cores. Sem arrependimentos, nem culpas.
Porque ser junho é que recordei de todos os meses do ano. Dezembro também estava lá. Carregado de frios e agasalhos. Com sabores adocicados e salpicados com canela que a minha avó trazia nos dedos. Nas mãos guardava a coragem do vento e os sabores de menina.
Porque é junho, fui buscar o pinheiro. Bravo. Alto, esguio e verde. Foi aí, num ramo robusto, que pendurei o balancé. Depois, balancei-me para cá e para lá. E, ainda hoje, adivinho o vento a acarinhar o meu corpo. O mesmo estonteamento. O mesmo tremor. Só que mais violento. Porque o pinheiro já não vive ali. Nem eu. Que já não sou a mesma que se balouçava à tardinha.

 

(Fotografia da Internet)


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]
Page copy protected against web site content infringement by Copyscape "Douce l'éternité qui coule des fontaines/ Au printemps quand le vent dissipe les brouillards/ Douce la porte ouverte à l'ombre du grand chêne/ Et douce son odeur dans la soie d'un foulard."

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