Sábado, 26 de Março de 2016

Palavras pequeninas [E crocodilos coloridos]

Crocodilos, Sérgio Fernandes.jpg[Tela de Sérgio Fernandes]

 

- Podes dar-me água?

- Com certeza …

   Podias responder que sim! Eu entendia melhor…Pois podia, não me lembrei. Por vezes os adultos complicam tudo. Concordou comigo, sem deixar de acrescentar que os crescidos não sabem falar com as crianças. Que os miúdos sabem palavras mais pequeninas. Limitei-me a aceitar os argumentos, sem deixar de pensar como haveria de medir o tamanho das palavras. Desisti de imediato. Afinal, as palavras pequenas são mais doces.

   De repente, como se o tempo e o lugar tivessem renunciado a ser grandes, perguntou-me se eu estava a ver os crocodilos e o vermelho que se estendia por baixo do escorrega. Respondi que sim, na esperança de ter recorrido a uma palavra de dimensão adequada. Confirmei que um deles tinha riscas pretas e amarelas. Que era muito estranho. Que não havia crocodilos assim. Pois não! Repara naquele! Tão lindo… é vermelho… o outro é verde. Olha aquele como é azul. Tão lindos, não são? Não duvidei, não fosse a descrição ganhar palavras desnecessariamente grandes.

   Olhou para mim. Pelo rosto escorria a importância do momento. Apenas os olhos adivinhavam a noite que se aproximava, antecipando o brilho das estrelas. Sobrava um pouco de sol. Pediu-me que tomasse conta das crias. Obedeci. Rogou-me cuidados. Enumerou outros tantos. Sim? Perguntou com a certeza a refulgir nos olhos negros. Salva os ovos! Que os tirasse da margem por causa das pessoas que têm os pés pesados e desatentos.

   Cuidadosamente, peguei nos ovos. Caminhei como se transportasse uma bilha de água na cabeça, aproximei-me do ninho. Aqui? Sim! E assegurou-me que eu acabara de fazer uma boa ação. Que tinha salvado os pequenos. Sorri na delícia do gesto e na doçura das palavras, mesmo que pequeninas. E os mesmos olhos ávidos de narrativas perguntaram se voltávamos no dia seguinte. Com certeza. Voltaremos. E voltou a explicar que bastava um sim. Que era uma palavra mais pequena. Como ele! Que descobrira crocodilos coloridos numa abandonada poça de água.

   E foi nesse momento que me lembrei que, no meu tempo, as poças tinham rãs. Verdes. Não me lembro de outras cores...

 

 

 


Terça-feira, 16 de Junho de 2015

Água do rio

Fred Fichet.jpg

Hoje, vou revelar-te um segredo. Não pretendo que cantes. Que rias ou que me digas que sabes onde fica o desejo. Porque não sabes! Tu nunca ouviste o rio a cantar. Nem te atreveste a socorrer a gaivota deitada na areia. No rio havia um bote. E no bote, umas mãos que me abrigavam dos ventos e das marés. Sobravam as gargalhadas que trepavam pela duna. Um sorriso que me vestia quando pulava para terra. Não sabias. Agora, não quero que o vulgarizes. Ninguém compreenderá que o rio corre ao contrário e que se derruba na foz como a mesma voracidade com que o tempo me rouba os momentos. Porque desconheces que eu sou água e ignoras o que é partir e ficar. A olhar o rio…

 

Escultura de Fred Fichet


Terça-feira, 11 de Setembro de 2012

Gritos [quando o silêncio se alimenta na água]

 

Hoje, não me apetece escrever. Tenho a boca alagada por palavras e as mãos desenrodilham meadas de falas melindradas. É por isso que não quero escrever. Porque a diferença está entre o que vi o que não vi. Também o sol regressa todos os dias e anda pelas ruas em silêncio para eu ouvir a chuva que cai nos beirais.Não sei pensar quando as palavras não estão quietas.




Quinta-feira, 16 de Outubro de 2008

enrodilhar

de António  Correia Silva

 

Os pés da minha avó peregrinavam afoitos pela areia. E sempre que desagradados, recusavam os chinelos. Todos os dias, pela manhã, se cumpria o ritual. A bilha, muito direitinha em cima da cabeça, imaginava-se divindade num andor de procissão. Na cabeça da minha avó poisava uma rodilha de trapos. Farrapos de restos. Panos de cores desmaiadas. Tecidos urdidos por mãos enroladas. Uma rodilha abençoada. Auréola protectora. E a bilha anichava-se nela. Às vezes, trazia um raminho de camarinha com perfume de mel. Ou de alecrim.

 

De lá para cá, o corpo dela não se enrodilhava na saia, por isso não tropeçava na areia. Leve, apesar de cansada. Ágil apesar dos barros cheios de água. Raramente o pote. Apenas na vida que a incitava a dançar. E ela pensava que a rodilha lhe amarrava a alma. E a fixava no areal. Para lhe sufocar desabafos e a impedir de chegar ao horizonte. No outro lado do Monte. Enrodilhou-se na ternura e numa rodilha de calor. Sem raiva, nem zanga. Sem se sentir ofendida. A vida é assim, acrescentava. Conformada. Sem parecer enrodilhar-se num equívoco. A rodilha era tão-somente um amparo.

 

A rodilha enrolou-se. Torceu-se cansada. Enroscou-se no tempo e partiu. Não quis ser pano vadio, embaraçado e torcido. Há uns tempos que se confundia com os mexericos que ouvia. E para não acabar os seus dias na condição de esfregão ou pano de limpeza, enrodilhou-se. Venceu com argumentação e partiu.

 

Dizia que certos trapos só a queriam enganar. Planeavam ser rodilha de decoração. Ou argola de guardanapos. E acrescentava que já não tinha idade para tantos enxovalhos. Que ninguém honrava a tradição. Nem havia respeito pela separação das águas. Que não estava aguentando. Achava-se bastante assarapantada. É que a minha avó era alentejana.

 

E eu, não sendo uma rodilha, não entendo que me queiram transformar em sogra para transportar cacos de barro encharcados em desarrumação .

 

 

 


Quarta-feira, 30 de Julho de 2008

beber

 a criação humana num copo de água

 

 ou

 a nociva exuberância da gente

 

E o tédio é um caos. Tudo numa inquietante tranquilidade. De vez em quando uma rã coaxa sem saber o que vem aí. A exuberância da vegetação esconde segredos calados. Adão está desesperado. Tanta terra para cuidar! Só tem que trabalhar. E ele não percebe nada de jardinagem. Eva também não. E têm fome. E a maçã é uma estratégia. Começam os desencontros. Os interesses acumulam-se. A felicidade é uma miragem. O mal e o bem existem no pecado original. E eles vivem o tormento desse momento banal. E que importância tem se não existem bares para afogar as mágoas? A angústia e o desespero atrapalha-lhes a vida e não agem por mal. Têm fome de tudo. De amor também. Sofrem. Valem-se a si próprios. Não se bastam. A solidão enruga-lhes a apreensão da realidade. Circunscreve-lhes o mundo, porque estão nus. E a nudez é pecado. E lamentam que ninguém  se  encurrale numa árvore qualquer e descubra o paraíso.

 

O mundo está aí. Tal e qual como o Homem quer. À sua imagem e semelhança. Com cobras e lagartos. Guerras e fomes. Misérias humanas originais. Pequenas e grandes transgressões, porque as fotocópias já não são desculpa e o pecado não é o original. Um copo de água ajuda?

 


Domingo, 6 de Julho de 2008

um domingo fora da cidade

um piquenique ao fresco

 

Foram geleiras. Malas e malinhas. Umas transformaram-se em mesas com bancos. Outras não. Sacos de plástico emproados e contentes. Por um dia assumirem o papel de cestos de farnel aviado na véspera. Com toalha aos quadrados azuis e verdes que eles pintaram de vermelho e branco. Como manda a tradição. Muitos pastéis de bacalhau e outras frituras análogas. Arroz. Bolas e tartes. Pão. Muito pão. Melancia vermelhinha. Melão afidalgado de pepino. Cerejas e uvas muito redondinhas. E muitas garrafas. E muito vento. Sôfrego. Faminto. Por isso, houve comedorias que ele não viu.

 

Primeiro concentram-se os intervenientes. Ligam-se os motores e inicia-se a viagem. Já no local previamente escolhido e limpo de lixos, dispõem-se todos os ingredientes sobre as mesas. Largam-se umas boas gargalhadas. Logo a seguir, mistura-se tudo. Ninguém é dono de nada. Mais umas gotas de risadas. Depois come-se. Já poucos falam. E comem. E olham. Contemplam. E investigam. Por um dia, apeámo-nos de vícios urbanos. Por ali. Eu cá gostei. Foi um momento lindo. Numa paisagem magnífica. E muitas admirações!

 

Hasta la vista...

 

 

Nota: Há mais fotografias no Panoramices. De pessoas é que não!

 


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]
Page copy protected against web site content infringement by Copyscape "Douce l'éternité qui coule des fontaines/ Au printemps quand le vent dissipe les brouillards/ Douce la porte ouverte à l'ombre du grand chêne/ Et douce son odeur dans la soie d'un foulard."

pontos recentes

Palavras pequeninas [E cr...

Água do rio

Gritos [quando o silêncio...

enrodilhar

beber

um domingo fora da cidade

RSS

outros pontos

Admiro-me... só por olhar!

Locations of visitors to this page

Pesquisar neste blog

 

Abril 2016

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


SAPO Blogs

últimos comentários

A "fonte" é dada a narrativas extraordinárias...
Pois é...
Sabes uma coisa "pequenina"? Continuas a escrever ...
Por vezes, é assim...
Escrita poética Gostei.
Pois, sabe bem ler as tuas palavras... saudade.
Que lindo!! Como sempre, uma escrita deliciosa...U...
Bela e feliz noite de Natal Bonita
Pena que um piropo teu...não seja um bom diaaqui ...