Domingo, 3 de Abril de 2016

Desacerto [desabafo de uma galinha]

gal.jpg[Imagem da Internet]

 

  Quando vim ao mundo (ovo prodigioso) já ele cantarolava. Fui adolescendo e esse crescer quotidiano alicerçou-se numa distribuição de tudo. No espertar da manhã, no entusiasmo tão inquietante como arrebatado. Superior a relação que se estabeleceu entre nós.

Distinto galo! Jovial na forma, galeria de cores, galante no falar, gaiato nas notas de acordar. Todas as manhãs. Naturalmente. Poeta, também. Daqueles que veneram as palavras e as letras. Que verbalizam as sílabas delirantes de contentamento. Alheado de mundividências. Presente na emoção e na paixão que são a razão de eu permanecer aqui. No modo de dizer erva e estrelas-do-mar e terra e formiga e eu e tu e nós… tamanha sensibilidade! Enorme comoção. Com coisas simples. Com o desadormecer do Sol que se erguia para além dos montes. E chegava com flores. Papoilas. Rubras papoilas.

Triste galo. Enredado na teia do galinheiro. Destino a cumprir, calvário resignado, fado cantado pela manhã. Asas penadas que se derramam pelo galinheiro.

Amor amado, o nosso. Inveja da galinhada, claro. Tratados, crónicas, jornais, romances… Nada! Não houve notícia de amor assim. Na linguagem, na erudição.

Compreendem agora como fiquei? A que peso me entortei? Ao Amor. Traí propósitos e quebrei promessas. Apenas ambicionava ser uma galinha afortunada que rumorejava:

- Bom dia, Amor.

- Talvez um dia…

Embora um dia seja excessivamente tarde… e o muro muito alto. A capoeira é grande. O chão é plano. Sem ímpeto para saltar.


Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Pairar [no negro espanto das andorinhas]

 

aguarela de jeroomady

 

 

 

 

Olho e vejo as andorinhas transtornadas. Vieram na ânsia da chegada. Largaram frios abafos e procuram abrigos quentes. O pão e um ninho de afectos.

 

Chegaram. Pelo bico largavam o espanto da sua voz deliciosa. As asas pranteavam o luto. O ardil das penas. E voavam insurreições cambaleadas. Círculos espavoridos.

 

As andorinhas vieram pela estrada do tempo. Pela calçada. E não  se conformam que lhes tenham devastado os ninhos.

 


Sábado, 15 de Novembro de 2008

cambalhotar

 de  @LIX

 

 

 

 

 

 

 

O que eu queria mesmo é dar cambalhotas! Percebem? Cambalhotas! Num tapete sem fim. Daqui até ao vento. E que, quando lá chegasse, ele me ensinasse a voar e a cambalhotar. Para eu continuar a rodopiar. Tal e qual como se o mundo fosse uma enorme bola de goma-elástica. Colorida e muito divertida. Que me fizesse acreditar o que o meu corpo me obriga esquecer. Que posso saltar com uma perna, correr, nadar, esticar-me ao comprido. Deitar-me no chão. Num tapete vermelho que fingia comigo. E os dois, de mão dada, deslizávamos por aí. Porque a cambalhota é uma volta que se dá de cabeça para baixo. Uma reviravolta. Um trambolhão. Queda, não.

 
O que eu queria mesmo é dar cambalhotas! Percebem? Cambalhotas! Imitar corpos acrobatas. Dançarinos genuínos. Cambalhotas de irrealidades e mais tarde recordar os temporais vencidos no tapete a fugir. Na ausência de astúcias radicais, quedar-me pelas cambalhotas linguísticas. Como os políticos que se entretêm na mudança da convicção. Que cambalhotam sentimentos. Que na face da lei invertem sortes e fados.
 
O que eu queria mesmo é dar cambalhotas! Percebem? Cambalhotas! Ser pedra arrastada  por águas luzentes e cristalinas no leito do rio. Sem ousar pensar que a chávena não pode voar. Porque só tem uma asa. E quando a perdeu, estatelou-se no chão. Em pedaços apartados e descompostos.
 
O que eu queria mesmo é dar cambalhotas! Percebem? Cambalhotas! De fúria e de fraqueza. De Sol morno. De vento fresco dado a cíclicas mutações. Como sopra, o tresloucado! Na sua ansiedade de resfolegar, nem repara que já despi os trajos de Verão.

 

Quando se tem ilusões, e o Sol teima em queimar enganos, o Inverno é uma pirueta com sabor. Como o arroz-doce da dona Perpétua. E é ali que vou iniciar cambalhotas de gargalhar. Fraternas cambalhotas vocabulares. As palavras não capotam, dão cambalhotas, duplo mortal encarpado. E geralmente caem de pé.
 

O que eu queria mesmo é dar cambalhotas! Percebem? Cambalhotas!  E voar ao contrário.

 


Quinta-feira, 13 de Novembro de 2008

haver

 Havia uma avenida que não era uma avenida. Faltava-lhe largura de gentes a voltear. Reflexos de néon e muito devaneio. Mas a avenida era uma avenida com laranjeiras na calçada. Laranjas acicatadas pelas intempéries. Moribundas ao Sol. De açúcares mortiços e caducos. O vento empurrava-as para o chão e os transeuntes pontapeavam-nas muito irritados. Sofriam as laranjas arrumadas na calçada da avenida. A avenida apenas o era pela toponímia ferrada na parede da sapataria da esquina. De quem desce, do lado direito. A avenida era avenida. Tinha, ao longo dos tempos, assumido importâncias na vila. Tudo acontecia ali. Ou nada, porque não acontecia nada na avenida. Somente passos para baixo e para cima. Andares estafados de corpos exaustos. Os olhos não viam nada. Sempre que desciam a avenida, faziam-no com pressa. Quando a subiam, galgavam passadas para casa.

 
Ele caminhava sempre à frente. Pelo gosto da dianteira. Pela agilidade. Talvez pela oculta ambição de subir a avenida sabendo-se imitado. Talvez predador ao contrário. E galgava as pedras da calçada numa movimentação demasiado veloz para indivíduos da sua espécie. Em silêncio. Sem olhares escusados. Só em frente. De vez em quando para trás. Certificava a perseguição. Era a vida que se propalava pela avenida.
 
Ela simulava-lhe os episódios desenhados na calçada da avenida. Com silêncios desobedientes. Os seus olhos opunham-se à condição de humilhação. Não tinha corpo, nem alma, de fiéis caninos ensaiados. Perseguia as passadas dele a ganir espumas desobedientes. Mas não falava, para que ele não a ouvisse. Havia dias assim. De nada porque atulhados e cansados de correrias sem fim. De silêncios amordaçados a gritar que não. Raivas e impossibilidades que a percorriam dos pés à cabeça. Por isso, subia a avenida submissa e acabrunhada. Como as laranjas que se espojavam no chão e que haviam perdido o sabor do laranjal que ainda ignoram.
 
Há dias assim. De tudo porque maltratados por um tempo que passa a correr pela avenida. Um tempo que escarnece do corpo a embranquecer. Zomba de agilidades desperdiçadas a subir a avenida com laranjeiras na calçada. E diz que é assim.
 
Há dias assim. Os pés sobem e descem a calçada, agrilhoados pela vontade de quem se declara luz. Ela sabia a mentira em que ele se enrolara. Ele é que não. Por isso, ele subia a avenida que era quase uma avenida. Ela descia.
 
Há dias assim. Dias em que tudo é normal. Dias em que não acontece nada de especial.
 

Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]
Page copy protected against web site content infringement by Copyscape "Douce l'éternité qui coule des fontaines/ Au printemps quand le vent dissipe les brouillards/ Douce la porte ouverte à l'ombre du grand chêne/ Et douce son odeur dans la soie d'un foulard."

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Pois é...
Sabes uma coisa "pequenina"? Continuas a escrever ...
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Pois, sabe bem ler as tuas palavras... saudade.
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