Domingo, 2 de Setembro de 2012

A expectativa do voo [precioso talento intimamente dependente das penas]

[fotografia de Jorge Soares]



Já não é tempo de cerejas. O sol cai sossegadamente no colo da colina e os homens abdicam das cestas. Calam-se as cantigas dos dedos e desarrumam-se as mãos que não acertam com a eficácia da mudança. É um retrocesso que se estende pelo vale. Apenas uma brisa abafada segue o mesmo caminho. Sem atalhos. Pelo trilho das pedras. Para recuperar o sentido do compromisso, os pássaros empoleiram-se nas árvores despidas de frutos. E olham numa incessante busca de equilíbrio.

 

E este pássaro que aqui chegou conserva o ritual e recusa-se a construir o ninho no chão. Crava o olhar no infinito na ilusória busca de locais com abundância de alimentos. No cimo da árvore, compõe o voo para ir mais longe.

 

Já não há cerejas no vale e eu não sei onde ouvir os pássaros. Fazem-me faltas as perfeitas melodias sem hora marcada. A beleza das penas. Os silêncios alegres. Mas sei que vou continuar a ouvi-los. Porque “os pássaros que, ao pousarem um instante sobre ramos muito leves, sentem-nos ceder, mas cantam! Eles sabem que possuem asas.”




Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

olhar [de longe, ao perto é uma miragem]

 

fotografia de Jorge Soares

 

 

 

olha-me. Fixamente nos olhos. Assim… de longe, para que não sintas o orvalho que escorre em lava até à minha voz. Para que não saibas que as ervas arrefecidas se esvaecem nos prantos. Na jactância brilhante da cor que presumes. Vai-te, vaidade da efemeridade acordada. As tuas pétalas, agora acetinadas, morrerão na esquina do tempo. Às mãos de argamassa com que elevaste a distância. Não galgarás o muro, sem a verdade dos cimentos. Na certeza que há fundamentos com cor.

 

…olho-te. Amarradamente ao fim. Assim… ao longe, para que conheças a dissemelhança das cores… de longe, para que, no horizonte cinzento-branco do meu olhar, vejas que o cinzento se desconcentra numa alforria de vinhos…

 

…olho-te. De tão longe. Mas sei o arco-íris da tua pele… e o sabor que exala das pétalas carminas… com que me vencias. A mim. Assim

 

 

 


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]
Page copy protected against web site content infringement by Copyscape "Douce l'éternité qui coule des fontaines/ Au printemps quand le vent dissipe les brouillards/ Douce la porte ouverte à l'ombre du grand chêne/ Et douce son odeur dans la soie d'un foulard."

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