Quarta-feira, 6 de Janeiro de 2010

Balir [no baixo da serra. em baixo.]

 

Jorge Soares

 

 

Levantou-se cedo. Com a certeza na decisão e a rota no olhar. E começou a subir a serra. O dia esquecera-se do Sol. Ou do avesso. Tanto faz. Veio a chuva. A água. E as ervar daninhas multiplicaram-se na esperança. Assim, numa louca devassidão do sim e do não. Enquanto decorria a festa da terra, revoltavam-se as taças da viçosa alegria. Espreguinçando-se, a luz acendia réstias de dia. A tarde enroupava-se na lã do frio. Bonita na serenidade da hesitação que as nuvens carregavam na encosta do cinzento desalinho. Lá fora, estendia-se um doce e verde tapete de fartura. E as ovelas baliam admirações famintas.

 

As ovelhas nutriam-se numa preguiçosa melodia. Como a quietude do espantalho que estendia os braços na ilusão do abraço. Rasgavam as flores numa simetria de gestos. A individualidade consumia-se no rebanho, ao mesmo tempo que a angústia da vedação. Há muito que a cerca era um devaneio primaveril. E os sonhos quedaram-se no sopé da serra. No lado de lá. Donde soavam passos tosqueados à noitinha.

 

Desceu até ao baixo da serra. Onde as rubras papoilas se fechavam no logro que conceberam. Há muito que a pastagem se extinguira na gula dos passos. Na fartura dos corpos. E eles separaram-se. Sem saber que foram feitos um para o outro.

 


Escrito por Paola às 22:18
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De jabeiteslp a 7 de Janeiro de 2010 às 15:21
"há muito que a cerca
era um devaneio primaveril..."

beijinhos e feliz fim de semana
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De Paola a 7 de Janeiro de 2010 às 21:18
João, "pular a cerca"... é sempre uma ilusão... que nos nutre... Beijinho.


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