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ponto de admiração

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17
Abr10

Ser [na fartura do tempo, na míngua do Sol]

Paola

 

Chove tanto! A água desliza num doce e sussurante caminhar pela ladeira. Não sei, se vem de cima ou de baixo. Como não sei, se a ladeira sobe ou desce. E é nesta inquietante perturbação que me desoriento no tempo. Há em mim, o desconcerto do empedrado. Conheço as pedras. Sei o chão. Apenas o relógio não estranha a abominável monotonia dos ponteiros. Que se repetem nos passos simétricos e frios da calçada. E andam. Andam na ignorância que o tempo é uma medida arbitrária da duração das coisas. E penso que ele é feliz assim. Pelo chão, esvaiem-se prantos quebrados. São regatos desidratados pelo longo período de seca. Estalam frechas de saudade. Chove tanto!

 

Corri pela ladeira com a mesma inclinação das cansadas pedras da calçada. Percebi urros. Escutei raivas. São dores apertadas à fragilidade das formas. Contei as pedras. Sobram arrombos. Há tropeços nos buracos escancarados. Contei o tempo. Voltei para trás. O meu tempo é agora mais curto. Lá ao fundo, demora-se um passado de cores intensas. Foi um prazer. Tem um medronhal e um charco. As rãs coaxam na alegria da chuva. E eu canso-me da pressa dos autocarros. E dos passageiros que atropelam o tempo. E a estrada que sobe pela calçada. Penso que são felizes assim. Na conveniência da gula. São corpos narcísicos que ignoram os campos de margaridas. Às floritas amarelas. E brancas. Arrojada, a papoila que se intromete entre o nada e o tudo. É sangue, é vida que se alastra pelo ópio do futuro. Ali, no meio das margaridas amarelas. Um rio de azul gargalha num leito generoso. De mão dada, um abraço aconhegado dos frutos que espreitavam o Sol. Penso que são felizes assim.

 

E eu vergo-me ao passado que me anche o coração. Tão sublime. Cheira a terra e a laranja. E tem um raminho de rosmaninho nos cabelos. Nos olhos saltitam piscos e melros. E há gaivotas e cegonhas nos arrozais. E tem vozes e rostos. E barcos. Assentos suspensos na pele das águas para eu me baloiçar. E uma concertina que se estripa na exultação dos dedos. Sabe a marés salgadas e a benignos areais. O meu passado, que é tanto, tem. Penso que sou feliz assim. Se não o tivesse, não teria alma. Nem coração. Nem estremeceria de emoção à luz e ao calor do Sol. Nem subiria a ladeira, na impossibilidade de saber as pedras. O futuro está no outro lado. Como quem desce, à direita. Depois à esquerda. No centro de tudo. De mim. Num campo de margaridas amarelas. Creio que sou feliz assim. Mesmo que o meu futuro já não tenha as minhas raízes. Que lhe falte chão. E que os meus pés se dobrem num plangente caminhar.

Desço a ladeira que dá para o campo de margaridas amarelas. Na agnosia das pedras. No redemoinho da vida. De sol a sol. E rio-me. E choro. E estremeço sempre que me reinvento ao pôr-do-sol. Ali, onde escalo e engulo a ladeira na inexistência de corrimão. Sempre que em Abril for Primavera.


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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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