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ponto de admiração

ponto de admiração

09
Jun10

relembrar [estendida no ímpeto dos alinhavos do tempo]

Paola

 

Uma doce sensação percorre-me o corpo. Numa verde esperança de vida. O tempo instala-se. Senta-se no desleixo da imprecisão. As pernas arqueadas prolongam-se pelas canseiras acumuladas nas folhas amarelas e mortas que caiem da figueira. Apenas os pardais se satisfazem na alegria dos figos. São bicos insaciados que pipilam generosas melodias de conforto. E as folhas são agasalhos na nudez da noite. No vale, corre o eco silencioso e perfumado das ginjas. Que coram sempre que o tempo as beija num ímpeto renovado todas as manhãs. Um beijo quente e doce que se arremessa no furor da repetição. No vício da hora. A todas as horas. À noite, na véspera do sono. No embalo dos gestos que alimentam as estrelas. É o mapa da fome que percorro com os dedos famintos, para além do tempo. Pelo tempo em que as figueiras se deleitavam com os pardais.

 

A um passo dali, uma figueira delicia-se no negrume dos figos. Eu agradeço-lhe a benevolência da sombra que chega numa copa frondosa e boleada. Agradeço-lhe a doçura dos frutos. O mel das sílabas que lambia na cobiça do tudo. Na maior ilusão da posse. Como se pudessem, os figos, devorar o tempo. Quebrar a densa barreira da eternidade. E eles, inculpados, agradecem o apetite dos bichos. Sem perceber o gesto coercivo do tempo. Dois passos. Na ternura da encosta, onde a sombra fresca se inclina e a brandura da aragem se move brandamente. Ali, edifico um mundo pequenino. Um mundo de crianças que brincam na sede de brincar. Farrapos roubados. Trapos suplicados. E uma meia, ainda mais trapo, muito cansada de tantos atalhos pisados. Na carícia de uma tarde rezingona, as mãos vestem-se de fúria e talham o corpo. Depois o rosto. Um sorriso escorre pelas faces e desagua na perícia dos dedos. O vestido. O franzido da saia. Nasce a cria que se diz na sinceridade de uma boneca de trapos. E jorraram as alegrias. Os abraços com um enorme sabor a figos e a ginjas. Agora, eu olho para lá. E já não sei o que são os frutos. Numa gradual perca da noção de realidade.

 

 

 

[imagem da internet]


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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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