Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

ponto de admiração

ponto de admiração

01
Jan13

saboroso ano novo [na ausência do rio]

Paola

As despedidas são sempre tristes e esta não era excepção.

As férias estavam no fim, as malas feitas, a casa arrumada, o carro atafulhado de tralha. É impressionante o volume de memórias e lágrimas não derramadas que se consegue arrumar no porta-bagagens de um Toyota Corolla!

Antes de partirmos rumo a casa, um último adeus à praia dos meus afetos.

O dia despedia-se da luz. O céu cobria-se de farripas de algodão doce que dançavam embaladas pela suave e amena brisa, num festival de cores. E, de repente, desenhou-se um arco-íris do tamanho do céu. Por cima de mim, o firmamento era de um azul anilado, passando por um tom verde amarelado para terminar num laranja avermelhado que se estendia até onde a vista já não conseguia ver. E eu passava por baixo, na alegria das cores. Escondida sorrateiramente atrás das nuvens, uma estrela abria os seus braços para mim, aconchegando-me no seu colo e atrasando a partida. Aquele era um lugar que existia a prazo e, por isso, havia que prolongá-lo no olhar.

Ao fundo, recortado na linha do horizonte, o monte brotava suavemente, como se um pintor tivesse tido uma doce perturbação e o delicado pincel lhe tivesse escapado momentaneamente das mãos. E o lugar surgia, concebido por um ser superior, numa fresca representação bíblica.

Depois, só tons de azul. Atalhados por uma estrada de um amarelo muito cálido que o Sol abrira só para mim, corri até ao areal que percorri descalça. Uma suave espuma vinha beijar-me os pés. Falava baixinho. Num murmúrio delicioso, um lamento desesperado que me invadia e perturbava, mas que quero reter na memória.

No areal, os botes sobreviviam despidos de brilhos de outros tempos. Era desolador vê-los assim, vazios do seu esplendor, da algazarra das crianças, do ensurdecedor barulho das agulhas de croché da avó, das conversas das “tias”. Do balde negro que chegava com chocos, lulas e robalos.

Segurei-me àquele cheiro. Não era um cheiro qualquer, de uma qualquer praia, de um qualquer rio. É o meu bálsamo. Inconfundível. Reconhecê-lo-ia em qualquer lugar e é dele que eu sinto mais falta quando não estou ali.

É um misto de mar, com cobertura de algas e recheio de espuma, mais ou menos como as lulas recheadas que a minha mãe servia no dia de ano novo. Porque um poema não para no fim. Porque um verdadeiro poema vive eternamente.


(imagem da internet)



Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2014
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2013
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2012
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2011
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2010
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2009
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2008
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub