Quinta-feira, 1 de Maio de 2008

sobre Maio - outro amigo também

de Jorge Soares

 

 

 

A 25 de Abril de 1974, eu não sabia que se comemorava Maio. Politicamente ignorante, aderi de imediato à causa. Depressa percebi que um país “orgulhosamente só” não chegaria a lado nenhum. A cooperação, a partilha, a discussão, a cedência, a vitória, o exemplo, a motivação, a auto-estima, o envolvimento, a satisfação, a autonomia são valores dos quais não abro mão. Nunca receei que a minha individualidade se subjugasse ao colectivo. Antes pelo contrário. É no confronto com o outro que me afirmo. Portugal deveria ter feito o mesmo. Para além disso, havia uma guerra estúpida a reivindicar terras que não eram suas, porém a mutilar povos que choravam lágrimas de sangue e de esperança. A minha família tem exarados no corpo vestígios desse erro tamanho. Erro sintáctico. Anástrofe desnorteada.

 

No 1.º de Maio de 1974 eu estive lá. Um mar de gente que dizia palavras de ordem, entoava cânticos e carregava nas mãos calos e dores de esperança, alegrias sem medida.  Uma fé que Abril acabara de abrir. Uma confiança projectada no futuro e pintada de vermelho. Estive lá, devo ter cantarolado, mas o meu peito esteve sempre a salvo de autocolantes – pragas ambulantes. Ainda hoje, sou avessa a insígnias. Tenho para mim que as convicções políticas, religiosas e até clubistas constituem o meu património afectivo, também efectivo. Não as dou, nem as apregoo sem mais nem menos. Dando crédito ao que se houve por aí, a publicidade paga-se caro. Então, por que razão hei-de fazer a dita? Publicidade à borla? Não senhor, obrigado. Nada como uma blusinha lisa. Nada de ornatos.

 

Historicamente, Maio remonta ao séc. XIX, 1886. Nesses tempos, Chicago reclamou direitos, a polícia espancou, matou e feriu. Paris criou o dia mundial do trabalho, em 1889. Em 1974 fazia sentido que Portugal despertasse para essa realidade. Apesar de ignorados, não devíamos permanecer ignorantes. Ainda por cima num país pobre, penhorado, sofrido, vexado. Num país que acabara de renascer e começara a cantar.

 

 

Passados 38 anos, comemora-se Maio, outra vez. Preocupa-me a necessidade do acto. Comemorar o Dia do Trabalhador, traduz-se por “os portugueses não trabalham?”? Então, o Governo tem razão… A "celebração do trabalho" ? Então, a razão salta para o lado de quem lá vai cumprindo as oito, dez, doze... horitas. É tudo uma questão de perspectiva. Do ângulo de visão. E ainda há quem apenas veja os planos, grandes, muito grandes.

 

 

Celebrar efemérides é sempre suspeito. Umas são acontecimentos foleiros, outras movem-se pelo "vil metal", outras ainda por uma lamechice doentia, mais aquelas que patenteiam um provincianismo irritante. Escassas as coerentes e livres. Não há paciência .

 

 

O que me preocupa mesmo é a indispensabilidade de comemorarmos Maio. Por tudo o que se passa aqui… 34 anos depois de Abril, Maio continua a estar magoado. Eu também!

 


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