Domingo, 4 de Maio de 2008

errar

Mãe pela minha Mãe - erro ortográfico
 
 
 

 
 
 
(Almada Negreiros, Maternidade)

Também eu tive mãe... O seu nome tem um C, a consoante que inaugura a palavra coração. Foi um erro ortográfico desmedido, fatal. Uma mãe que hoje não me exige um beijo, uma flor, um afago especial no "Dia da Mãe". Hoje não tenho colo.

A minha mãe não foi capaz de vencer um coração estúpido, egoísta e indolente que, numa manhã de Junho do ano passado, decidiu não trabalhar. E ela que tanto trabalhou... Mais do que a reforma antecipada, ele reivindicou a aposentação compulsiva. Fez birra. Foi uma quezília terrível. E ganhou. Estava legislado naquele decreto horrendo que chegou demasiado cedo. A minha mãe perdeu a causa, incriminada pelo abutre de acusação do tribunal da vida. Foi ter com ela à sala. Encontrou-a junto ao sofá.

E hoje não tenho mãe para dar um beijo... mesmo num dia inútil, lamechas, ridículo, convencionado, calendarizado. As mães são de todos os dias, as mães são do sempre. Mesmo quando fecham a torneira, apagam a luz  e vão embora. Estão! A minha está ali... Mesmo num dia comprado e vendido na papelaria da esquina, eu queria que estivesses aqui. É domingo, mãe!

Mãe, não falemos de maternidades encerradas. Nem de natalidade controlada pelas dificuldades da vida. Logo vês tudo no Telejornal, sim?

Tenho saudades tuas, mãe. Nunca mais me telefonaste. Nunca mais te visitei. Nunca mais mostraste preocupação com os teus netos.
Já não gostas da minha sopa, mãe?
Já sei, queres que eu faça o bolo de ananás, não é?
Gulosa!

Mãe! Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei!
Traz tinta encarnada para escrever estas coisas!
Tinta cor de sangue verdadeiro, encarnado!
Eu ainda não fiz viagens
E a minha cabeça não se lembra senão de viagens!
Eu vou viajar.
Tenho sede! Eu prometo saber viajar.
Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um.
Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa.
Depois venho sentar-me a teu lado.
Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.
Mãe! Ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado!
Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa.
Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa. Como a mesa.

Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!


                                                             Almada Negreiros

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Estou: Triste!

1 comentário:
De GMV a 5 de Maio de 2008 às 00:03
Que lindo, Paola! Que lindo! Talvez um dia, quando não tiver a minha, possa escrever com esta beleza um recado aos céus.


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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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