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ponto de admiração

ponto de admiração

16
Out08

enrodilhar

Paola

de António  Correia Silva

 

Os pés da minha avó peregrinavam afoitos pela areia. E sempre que desagradados, recusavam os chinelos. Todos os dias, pela manhã, se cumpria o ritual. A bilha, muito direitinha em cima da cabeça, imaginava-se divindade num andor de procissão. Na cabeça da minha avó poisava uma rodilha de trapos. Farrapos de restos. Panos de cores desmaiadas. Tecidos urdidos por mãos enroladas. Uma rodilha abençoada. Auréola protectora. E a bilha anichava-se nela. Às vezes, trazia um raminho de camarinha com perfume de mel. Ou de alecrim.

 

De lá para cá, o corpo dela não se enrodilhava na saia, por isso não tropeçava na areia. Leve, apesar de cansada. Ágil apesar dos barros cheios de água. Raramente o pote. Apenas na vida que a incitava a dançar. E ela pensava que a rodilha lhe amarrava a alma. E a fixava no areal. Para lhe sufocar desabafos e a impedir de chegar ao horizonte. No outro lado do Monte. Enrodilhou-se na ternura e numa rodilha de calor. Sem raiva, nem zanga. Sem se sentir ofendida. A vida é assim, acrescentava. Conformada. Sem parecer enrodilhar-se num equívoco. A rodilha era tão-somente um amparo.

 

A rodilha enrolou-se. Torceu-se cansada. Enroscou-se no tempo e partiu. Não quis ser pano vadio, embaraçado e torcido. Há uns tempos que se confundia com os mexericos que ouvia. E para não acabar os seus dias na condição de esfregão ou pano de limpeza, enrodilhou-se. Venceu com argumentação e partiu.

 

Dizia que certos trapos só a queriam enganar. Planeavam ser rodilha de decoração. Ou argola de guardanapos. E acrescentava que já não tinha idade para tantos enxovalhos. Que ninguém honrava a tradição. Nem havia respeito pela separação das águas. Que não estava aguentando. Achava-se bastante assarapantada. É que a minha avó era alentejana.

 

E eu, não sendo uma rodilha, não entendo que me queiram transformar em sogra para transportar cacos de barro encharcados em desarrumação[endif]--> .</style>

 

 

 

14
Out08

acordar

Paola

de Jorge Soares

 

Gosto de dormir até acordar. Sem intervalo. Adormecer as horas cansadas.  E sonhar que não me vou levantar. É só um sonho. Não é crime, é? Às vezes, já na cama, adormeço com a noite. E ela conta-me histórias de embalar. São cumplicidades que embrulham sonos e sonhos. Ela fala-me de penumbras e escuridões. Eu garanto-lhe que há luz. Ela garante que o Sol é amarelo, mas nunca o viu. Leva as mãos à cabeça e chora.

 

O dia acordou depois de a noite ter adormecido. Bem cedo! Espreguiçou-se, bocejou e disse qualquer coisa que não compreendi. Palavras arrufadas de quem lava os pés na água que corre fria. Exclamações amarelas de quem acorda com o gorjear dos pardais. E com o alvoroço do galo na capoeira. E com os grilos que cantam o alvorecer: gri‑gri...eu não morri... eu não morri... Estava frio e o Sol despertou também. Tomou um duche rápido. Vestiu-se. Tomou o pequeno-almoço. Pôs-se à janela determinado na espera. A Lua haveria de chegar. E talvez, seranemente, sussurar sem a olhar:

 

- Desculpa! Vai-te deitar. Já é tarde.

 

E o Sol deitar-se-á com um enorme sorriso nos lábios. Sem lhe tocar. Adivinha-lhe o rosto. Define-lhe o gesto. Chorosa, a Lua, confessa que assim não é feliz.

 

E eu, que não interfiro em guerras conjugais, espreguiço-me e grito ao vento que Gosto tanto de acordar todas as manhãs!

 

13
Out08

esgaravatar

Paola

de Paola, galinheiro

 

Esgravatar é um verbo necessário. Se não o fosse, nem existiria. Essa coisa de se pensar que não fica bem e tal, não se justifica. Que esgaravatar é próprio das galinhas, não me convence. Os pobres galináceos têm objectivos individuais a perseguir. Por isso, a passam o dia a esgravatar e a comer tudo o que encontram. Quer se trate de minhocas, sementes e frutos e migalhas. Não me parece nada bem é que se contentem com migalhas. Paciência, isso é com elas. Até o galo esgravata. E é um senhor! Canta é muito melhor, logo pela manhã.

 

Esgaravatei para nascer, e que trabalhão dei à minha rica mãezinha, continuei pela vida fora, que já vai longa, e continuo a fazê-lo. Mas não sou galinha. Apesar de cacarejar de vez em quando.

 

Esgravato para remexer a terra. E que perfume ela tem! Para atiçar o lume. Com tenaz, que não me quero queimar. Às vezes queimo. Esgaravato nas gavetas. Só quando não me lembro onde enfiei as meias pretas. As outras sei, porque nem as comprei.

 

Esgaravato o fundo do tacho. Sabe tão bem! E esgaravato perguntas e respostas para mim. Também para eles. E gosto tanto! E esgaravatar confunde-se com saber e aprender. Pesquisar e perguntar. Solucionar e responder. Pensar e relacionar. Ai, que prazer! Esgaravatar nos livros. Bicar as palavras. Debicar as frases e transportá-las no bico para mais tarde saborear. E esgaravatar soluções. Esgaravato porque não sei. Porque vivo e canto incertezas.

 

Esgravatar soa a arcaísmo. A estrangeirismo. Ai, o que é isso, professora. Que palavra tão ruim. Deixe lá! Já ninguém fala assim. Eu continuei a esgravatar naquelas cabecitas nuas de vocabulário. Despidas de empenho linguístico. Se as galinhas é que esgaravatam, a metáfora e a conotação são de nula importância. E concluem que a denotação é que sim. O dicionário faz a decifração. Sem bem entender que o problema não está no verbo, porém na acção.

 

É minha convicção que, cada vez mais, se esgaravata menos. Ou já se compra feito e empacotado, de preferência numa lata com abertura fácil, ou não resulta. É que esgaravatar dá mesmo trabalho. Outro verbo que eles não gostam de praticar. Nem, como as galinhas, esgaravatam para comer. Apenas porque não têm fome de saber. 

No que me diz respeito, vou continuar a esgaravatar ou esgravatar que dá no mesmo. Sobretudo por mim. Só porque gosto de lhes dizer que decorar não é sinónimo de esgaravatar. E que se deve esgravatar todos os dias.

 

11
Out08

contar

Paola

   dNivaldo Menezes

 

Transversalidade dos afectos ou promiscuidade familiar

 

Nos Contos Populares multiplicam-se as personagens de encantos e desencantos. Todas com engenho e arte. Com ensinamentos também, ou não fosse a sabedoria popular um recurso admirável do conhecimento. Na memória colectiva da gente, estende-se um património afectivo admirável. E a generosidade é tão grande, que os fazem correr de mão em mão. Intrigas simples, mas nem por isso menos corrosivas e acutilantes. Cada história sabia a viagens maravilhosas ao mundo da fantasia, de mão dada com os avós. E que bem que elas faziam! Alongavam abraços. Partilhavam afectos. Excitavam as gargalhadas a rir, sempre que se cumpria o arrojo de lhes acrescentar um ponto. Era a imaginação a espreguiçar-se e a criatividade a encostar-se no devaneio.

 

A terra dos contos é órfã de autoria. No entanto, não consta que alguém tivesse apresentado queixa por ter sido plagiado. E como são tantos, os contos, cada um de nós tem o seu. Eu tenho vários. Uns são maravilhosos de encantar. Outros muito mais divertidos. Gosto daqueles que têm animais. E até dos religiosos e morais. E a delícia dos que tanto se esforçam para justificar o lugar! E há sempre os que dão ares de superioridade, com um exemplo na ponta da língua.

 

Trouxeram bruxas e fadas. Príncipes e sapos. Princesas e madrastas. Gatos com botas e cães descalços. Gatas domésticas e meninas friorentas. Capuchos coloridos e padres comilões. Heróis cavaleiros, vítimas inocentes, vilões e fanfarrões. Cobardias e mentiras. Logros e lealdades. Narizes empolados e rostos torcidos. Contributos notáveis de cada personagem para a que a história se perpetue. Pequenina, que a memória já não é grande coisa.

 

A madrasta da pobre Gata Borralheira é uma das personagens mais odiadas dos contos de encantar. A sua crueldade vornou-a famosa. E eu dou por mim a pensar que  as madrastas não são tão malvadas assim , as mães é que são extraordinárias. Contudo, não me lembro de contos com padrastos ruins. Nem bonzinhos. Os contos são invenção masculina, sem dúvida.

 

À saída da escola, o conto não é ficção. E o rapaz muito indignado exclama:

 

- Mãe, o João disse-me que tinha um padrasto!

- É porque tem, João.

- Mãe, eu também tenho um, não tenho?

- Sim… o pai que a mãe te arranjou…

- Ó mãe, esse não é o meu pai! É só padrasto.

- E o teu pai, sabes dele?

 

Mais não ouvi. Fiquei sem saber se era dos bons ou dos outros. Se o padastro é pai ou se o pai é que é padrasto. Nem se as personagens dos contos populares vão ter outro enquadramento.

 

Vou com pressa. Ao sábado é dia de comer arroz-doce. Ora se D. Sebastião faz parte do imaginário português, por que razão o arroz-doce não pode fazer do meu? Arrogo-me o direito de compensar a míngua semanal de afectos açucarados. Reconheço-o pelo cheiro.

 

 

09
Out08

Jacinta X

Paola

de Jorge Soares,  o cisne

 

Jacinta cumprimentou a amiga com um beijo na face e uma gargalhada carinhosa. Há muito que riam as duas. Com absurdos das duas. Com conivências de ambas. Por vezes, tropeçavam nas palavras. Perdiam-lhes o rasto. Mas riam.

 

- Não tenho telemóvel…

- Tens! Foi o Júlio que to deu. Lembras?

- Não tenho telemóvel!

 

O que ficara estendido no leito não. Fora o Júlio que lho oferecera. É o Júlio que lhe telefona. E ela não ouve. Irreversivelmente. Uma resolução cruel. Que lhe dilacera a alma e amputa o corpo.

 

- Pronto! Já percebi. Não tens telemóvel.

- Beatriz, vamos almoçar à Casa do Tubarão? Apetece-me peixe… Depois ajudas-me a escolher um telemóvel novo e vamos ao cinema… que tal?

- E tenho alternativa, minha amiga?

 

Não tinha. Jacinta contava sempre com ela. Por isso, não pedinchou. Nem perguntou. Ordenou sem direito a alegações engendradas por quem estava a expurgar o quarto de poeiras e outras sujidades semanais. Beatriz é a única que assistiu, por dentro, à ramificação do envolvimento com Júlio. Nunca abençoara a relação. Pelas suas crenças. Pelo desconcerto da situação. Descobrira-lhe tramas em excesso. No entanto, deu-lhe apoio incondicional. Porque amiga. Só por isso.

 

Conheceram-se numa viagem que fizeram a Viena, uns anos atrás. Numa cidade de sonhos. Na terra da música e da arte. Apaixonadamente. E o Danúbio é apenas um rio que rodopia nos braços da valsa. Perderam-se na fascinante mistura entre arte, cultura e edifícios monumentais. E nos recantos pitorescos. Na elegância de uma cidade que se abre com portões grandes e fachadas espantosas em todos os lados. E que ostenta, orgulhosamente, o seu amor à música e à arte. Extasiaram-se a ouvir Mozart. A todas as esquinas. E numa esplanada sobre o Danúbio, saboreando um forte chocolate quente, testemunharam que, ao Sul, o Sol brilha com mais entusiasmo. E tiveram saudade. Da luminosidade. E à noite, adormeciam no encantamento da Flauta Mágica

 

À mesa não há interrogações escusadas. Comem e riem. Trocam postais ilustrados de Viena e de outras cidades que saborearam juntas. E entrelaçam cumplicidades. As palavras alastram alegremente sobre a mesa. As cores misturam-se na partilha de afectos. Uma em cima, outra em baixo. Nem sempre ditas. O silêncio ingere-se e aconselha prudências. Nenhuma delas traz o Júlio para a conversa. Falam dele, sem o nomear. Fingem que a omissão o faz abalar. E que as palavras caladas emudecem sentimentos desordenados. Termos que querem gastar para metamorfosear sentimentos. Jacinta só sabe repetir a palavra nunca. Como uma obsessão. Com tempos bem definidos. Para disfarçar um amor que a derrota no interior da sua pele. E lá ao longe, ela sente o apelo, o grito com que terminara a litígio. Agora que decidiu nunca mais atender aquele telemóvel, acredita na verdade do caminho, na justeza das direcções que decidiu percorrer. Recorda o adeus trocado naquele dia à tardinha. E das palavras que disseram ficou-lhe uma enorme ferida aberta no coração. Que cicatrizaria, acreditava.

 

- O telemóvel, lembras-te?

- E podia esquecer-me?

- Estou a pensar… naquele! Com tudo a que tenho direito.

- Sim, senhora!!! Vejo que ganhas bem, menina.

 

E entrelaçadas na harmoniosa risada de Jacinta, aventuram-se numa loja de telemóveis. A Beatriz é mais dada às novas tecnologia. Jacinta apenas decidiu desligar a chamada. Não quer ceder ao desejo de contrariar uma vontade que a corrói por dentro. E ofegar que sim. Só que o coração de Jacinta solta o último pranto. Numa praça cheia de gente...

 

 

08
Out08

ensacar

Paola

azeitoninhas

 

                          Paola

 

 

O léxico mostra-se nas palavras. Todas as que a nossa língua tem. E tem tantas que não caberiam num saco. E dessas, muitas são as minhas e as tuas também. Vocabulário rico ou pobre. Diversificado ou repetitivo. Parco, brada a Andreia. Gostou da palavra, que não constava do seu magro vocabulário, mas que descobriu num texto lido na aula.

 

Um saco enorme, dizia eu. Mas roto, afiançava o Miguel. O rapaz lá explicava que a bolsa do léxico necessitava de ter a boca aberta e as asas arredadas uma da outra. A surpresa instalou-se nos olhos de quem defendia a tese do saco fechado. Assim como os sacos para lixo em rolo, em alta e baixa densidade, resistentes e estanques. Práticos e fáceis de abrir. Impenetrável! Garantiam. O Miguel escutou. E afirmou ter a certeza que o saco lexical tem portas e janelas. Umas vezes fechadas outras entreabertas. Às vezes, mas raramente, fechadas. E o pobre do rapaz ia perdendo o fôlego com tanta oposição. Teimoso na sua certeza, enfrentou a multidão e perguntou se entrava alguma coisa para um saco atado. Não! Responderam de imediato. Aí está, concluía o pequeno, então o saco tem que estar aberto para que novas palavras possam entrar. Ah!!! Pois é. Entram os neologismos, os estrangeirismos… Ai, professora, tantos ismos. Atenção que os arcaísmos não saem. Ficam por lá… abandonados. E há quem troce deles, o que é coisa ruim.

Professora, conduto é um arcaísmo? Não! É aquilo que se come habitualmente com o pão... Eu sei, profesora! Mas é um arcaísmo ou não? É que a minha avó está sempre a falar no conduto, professora. Apenas para algumas pessoas... para outras não. Vamos falar de regionalismos, vamos? Mais um ismo!!!! Lá por mor disso falemos de popular!

 

E falámos. Só que não lhes contei das saudades que tenho de comer pão alentejano, do verdadeiro comprado na venda, sem conduto. Facto que punha a minha avó materna em alvoroço. Então, a rapariga não quer toicinho com o pão? Nem água-mel?
Ainda, hoje, me recordo como um naco de pão alentejano me fazia entoar lindas canções, garanto que Deus não me deu voz para cantar, e como o conduto não tinha importância nenhuma. Nem a minha avó se ralava com regionalismos ou popularismos linguísticos. O que ela queria era que eu fosse feliz. Que comesse muito. E que engordasse também.

 

Mas o que eu gosto mesmo é de pão com azeitonas. Que era o conduto preferido da minha avó materna. Tudo em alentejano. E lamento que os meninos de agora já não saibam o que é conduto. Falam em mortadela, fiambre, creme de chocolate, compotas, sem saber que  pão com manteiga não é uma opção saudável. 

 

Professora, então o saco das palavras tem que estar sempre aberto, não é?

 

 

 

07
Out08

sachar

Paola

de Jorge Soares, Setúbal

 

A minha infância teve um sacho para brincar. Andava sempre um lá por casa, o que me permitia sachar. E lá saltitava eu de buraco em buraco. Por causa das minhocas. Das formigas de asa. Coisas muito necessárias para as ratoeiras. Às vezes fingia que sachava. Mas não, apenas brincava. Sobretudo quando chuviscava. E tanto que eu gostava! Os meus tenros anos têm o perfume de terra molhada. E eu carregava frescas pegadas do medronhal, enquanto o meu sacho saracoteava com alegria, dando ares de pessoa crescida, na mais estéril imitação da enxada.

 

Hoje, os meus pés carregam saudade. Perfumados com memórias da minha infância de uma terra molhada com o café da minha avó. Da cafeteira esmaltada de azul. Da cor do rio que acontecia lá ao fundo.

 

A minha infância teve um sacho. Para revirar a terra e cheirar-lhe o corpo. E arrancar as ervas daninhas. Dessas, não me lembro. Não tinham cheiro. Não têm perfume. O sacho tinha.

 

Maldita sibilante e a palatal também. Francamente! Só faltava aparecer para aí um D. Sancho qualquer para me atrapalhar a articulação!

 

05
Out08

encaracolar

Paola

de Emanuel Couto, caracol trepador

 

Porque hoje é domingo, só me apetece parar. Pular, saltar e conjugar o verbo espreguiçar. Eu, tu, ele, ela, nós. De vós não quero saber. E deles nem pensar. Fazem muito barulho e não quero acordar. Ou não! Vou imitar o caracol. Ponho os corninhos ao Sol serenamente. Durmo velozmente. Como lentamente. Mexo-me calmamente. Não faço nada apressadamente. E aguardo paulatinamente que acorde amanhã. Tudo excessivamente devagar. Tudo vou adiar. Tranquilamente. E se me lembar, não dou corda ao relógio. Para que ele não se atreva a falar. Depois, subirei cada degrau, da minha escada, vagarosamente. Não os fizeram para eu descansar? Não? Então, vou subir muito devagar!

 

E a notícia é de última hora. O caracol, que tentou subir apressadamente a parede de sua casa, sofreu um acidente cardiovascular. Foi assistido no local e transportado de urgência para o hospital mais próximo. Chegou já sem vida, vítima de paragem cardíaca ocorrida durante o transporte, informaram pausadamente. O funeral do irrequieto gastrópode sairá daqui para a sua terra natal. Espera-se a presença de conhecidas figuras públicas.

 

Mais não explicaram. Nem é preciso.

        

04
Out08

submeter

Paola

de Paola, as horas

 

Submittere - muito melhor em latim

 

Não gosto de verbos assim. Porque palavra ruim. De má índole e de escassa tolerância. Desengraçada e assanhada. E que este vocábulo não pense que o uso com agrado. Apenas porque sou forçada.

 

Não o creio muito amado. Porque obrigar é algemar. O que também detesto. E congratulo-me com a abolição da escravatura. Nem me meto em desordens… Nem ando para aí a cantarolar “chamem a polícia."Às vezes chamo, mas é por causa de uns desordeiros da via pública que não aprendem a estacionar o carro em locais onde não impeçam a minha livre circulação. E lá tenho que refrear a minha ânsia de os insultar. E vencer as dificuldades que me colocam logo pela manhã. Ainda com sono e mau feitio matinal. É empreitada hercúlea. Irra, que é sempre a mesma coisa!

 

Não o acredito muito respeitado. Porque humilhar é coisa que não se faz. Por uma questão de estima. De auto ou hetero pouco importa. Porém estima. E eu recuso-me a curvar-se submissamente a este ignóbil verbo. Não posso? Posso! Porque às vezes até gosto de me entregar. Nem tenho nada contra a subordinação, apesar de preferir a coordenação. É mais franca e não embaraça tanto a vida. Embora, toda a gente saiba que há quem goste de dominar. Ganas de ficar por cima. Subordinantes licenciosas! Nada mais resta às coitadas das subordinadas que ceder. E conjecturar a propósito de subjugar. E dou por mim a admitir que o amor foi inventado por quem nos quer obrigar a procriar. Só pode! O amor virtual também? Quem sabe!

 

Não o admito bem prezado. Só porque não gosto dele, tenho que me sujeitar? Era só o que faltava! Já me basta ter que trabalhar. Se eu tivesse outras habilidades. Não tenho e assim não dá. Eu sei que o meu trabalho é bem airoso. Ruim mesmo é ter que trabalhar. Paciência! Lá vou ter que me curvar.

 

Não gosto de me submeter. Não! Morra o verbo, morra ele, pum, pum, pum!Trás!

 

E eis que chega um rabugento batráquio, muito verde e enfatuado, a obrigar-me à submissão. Que sapice, Senhor Sapo, que sapice! Só porque gosto de si, meu anuro verdoengo, me predisponho à função. E submeto-me também. Todavia não gosto do verbo, lá isso é que não. Quando submeter é imperativo caio e dou um trambolhão. Não gosto da posição e muito menos da humilhação.

 

E porque apenas contemporizo com submissões legisladas, já que sou obrigada por lei, vou sair e comer arroz-doce. Com muita canela e sem preceitos informáticos.

 

 

 

02
Out08

petrificar

Paola

de Paola, sentimentos das pedras

 

Uma pedra é uma pedra. Um corpo duro e compacto. Basta olhar, professora.

 

E ver que é lápide de sepulcro onde se regista o nome dos mortos. E quadro de escola onde se escrevem palavras. E frases. Esclarecimentos de erros ortográficos e sintácticos. Sínteses e sumários de dores que calcetam o corpo. Alegrias e fantasias de um granizo que tomba desaustinado. Peças deste tabuleiro em que se joga uma vida que nos acolhe com sete pedras na mão. Nem sempre. Mas também. Aprendi que uma pedra não é só uma pedra. Estúpida e silenciosa. Dura e fria. Porque ninguém pode ser, sempre, tão duro como elas. Porque as pedras têm delicadezas que a gente não sente. Têm? Eles disseram que sim. E contaram-me tantas…

 

E ver lágrimas nas pedras que, continuadamente, são apedrejadas com restos e lixos. Queixume nas que, reiteradamente, sofrem as asperezas de pés, apressados e distraídos, que só sabem pisar. E repisar. Lamentos nas outras transformadas em armas de arremesso em mãos imprudentes. Prantos enegrecidos gerados por mortes que originam. A que assistem numa estrada qualquer. Tristes, as pedras…

 

E ver regozijos nas pedras que riem a fortuna da amizade. Unidas e solidárias numa calçada daí. Júbilos vaidosos brotam sempre que, das mãos do artista, sai arte. A pedra é esculturalmente trabalhada. E a beleza que ela tem!

 

E ver a História que elas suportam. Percursos decididos, progressos testemunhadas, descobertas inesperadas, certezas desconcertantes. São as pedras a falar, professora! Pois são! E histórias, contam? Siiiiiiiiiiiiiiim! E segredos também. Elas ouvem e não contam a ninguém. Guardam tesouros…

 

E ver a fresca alegria das pedras que se deitam para o rio passar. Leitos felizes e lavados. Lençóis distintos bordados a ponto-de-água.

 

E ver as pedras a exultar com a felicidade de uma criança. Porque suas confidentes. Parceiras na cumplicidade de narrativas engendradas. E são casinhas e animais. Rebuçados e gomas. Cadeiras e sofás. E o pai mais a mãe. E amigos de fingir. E as pedras dizem que sim, no enorme contentamento de poderem brincar. Às vezes, ensinam a contar. E a dialogar monólogos falseados. Depois, devolvem ecos...

 

E ver que a melhor qualidade das pedras é a modéstia. Não se gabam de façanhas tamanhas. Não se queixam. Não incriminam. Não desmoralizam. Não desencaminham. Não desmoralizam. Não acusam. Silenciam-se na cumplicidade.

 

E atire a primeira pedra quem nunca tropeçou num pedregulho falante e afectuoso. Ou ordinário, que também os há.

 

Apenas lhes pedi para olhar, ver, escutar e sentir! Possivelmente pedi demais... Quem sabe!

 

 

 

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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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