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ponto de admiração

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23
Jun22

Jacinta XX [chega um amor, para ser amor]

Paola

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A noite chegara sem que elas a vissem. Foi por isso que Beatriz acabou por dormir lá em casa. Beatriz era a amiga e tinha um coração enorme. Sempre escancarado. Acordou cedo. Faltou-lhe a almofada em que gostava de adormecer os sonhos. As desgraças e os sorrisos do dia. Foi à cozinha. Tirou um café da máquina que estava em cima do balcão perto da janela. E saiu para a varanda. Ela e a chávena vermelha que tinha sido comprada numa velha loja de antiguidades. As duas perdiam-se por aquelas coisas. Velhas. Usadas. Com histórias gigantescas escondidas. Às vezes, gastavam horas a adivinhá-las. E riam tanto. Porque eram, quase sempre, narrativas de rir. E tanto rir, choravam. Só para rir outra vez.

- Aqui? Já?

A surpresa quase entornou o café. Jacinta, que mal dormira, ali estava. Desassossegada e sonolenta. Acompanhada e sozinha. Naquela manhã, precisava de companhia.

- Ficas?

Beatriz ficou. Agarrada à chávena, perguntou-lhe se estava bem. Claro que não estava, mas isso pouco importava.

Jacinta enrolou-se no roupão de seda. Olhou para longe como quem olha exatamente para lá. E começou a dizer. Beatriz não se atreveu a qualquer palavra. Mesmo pequenina. Ouviu. 

Bastava uma personagem. E um espaço para que a narrativa se dissesse. Para que o tempo fosse outro. E a ação se encostasse ao rio. Até dispensava o narrador. Porque a história se dizia na primeira pessoa. Beatriz bebeu o último gole de café. Arrumou a cabeça. E olhou para longe. Como se procurasse o local onde a amiga se encontrava. Mas não chegou. Não foi capaz. Não sabia onde era. E a Jacinta não lhe indicou o caminho.

O dia mal tivera tempo de acordar e já o lago chamava por nós. E nunca um lago me doeu tanto. À sua volta, os pinheiros albergavam meia dúzia de aves. As que resistiam ao barulho das motas de água. E às sonoras gargalhadas que estavam guardadas nos cestos dos piqueniques que poisavam na relva que ficava no outro lado. Apenas uns metros de ervas. O resto era areia. Lembro-me que se ouviam os pardais, tordos e cotovias. E os melros que bebiam água na margem. Descaradamente. E a música tocava no bico dos pássaros. Ele ouvia. Eu ia tropeçando na alegria verde dos seus olhos. Pediu-me para dançar. Garantiu que aquela música não nos agasalhava. Tínhamos de ter uma só nossa. Porque merecíamos! E uma canção soou. Só nós a escutávamos. E queríamos tanto que aquela tarde fosse proibida de entardecer. Para que a noite não confundisse o dia.

O lago estendia-se por ali. Preguiçosamente, oferecia a água. As margens e o Sol. Tanto Sol. E fomos. De mão dada, entrámos na água. Arrepiámo-nos e sorrimos. Mergulhei e ele foi buscar-me com um beijo. Dois. E outros tantos. E os nossos corpos abraçaram-se numa ânsia louca de se amarem. Como se não estivesse ali ninguém. Como se nos afundássemos no momento. Eu retribuí com o meu amor todo. Com o meu medo todo. Que um espaço não se dissesse. Que o tempo não chegasse. Que a ação se afundasse no lago.

Beatriz escutava. Percebia a lágrima que escorregava pelo rosto da amiga. Enquanto o gato da imensa cauda amarela dormitava arrumado no tapete. Supostamente não conhecia a história. Supostamente.

Sabes, Beatriz, tenho tanto medo de molhar os pés. É o que sinto. Se não sentisse, serviria para alguma coisa? As gaivotas coloridas e sólidas enchiam o lago de alegria. E as pessoas tinham sorrisos gigantescos. Pareciam capazes de pedalar as suas dores como se fossem Sol.

- Ele não me telefonou ontem. Nem hoje.

- Não?

14
Jun22

A propósito de... (A Raridade das Coisas Banais, Pedro chagas Freitas)

Paola

Começa-se a ler um livro e pronto. A gente fica agarrada ao dito. Que dependência! Nem sei a razão. Porque sim. Ou nada. Ou porque o autor anuncia bem a coisa. Pode ter sido uma palavra. Uma frase. Talvez o título. A capa. Não sei ou já me esqueci. Nem preciso saber, certo?

Colei-me às páginas. Devorei frases, capítulos. E as personagens foram envelhecendo à minha frente. Tantos tropeços e tantos rios nos olhos. Gargalhadas e lágrimas de chorar. Outras de rir. Mas vivem comigo, como se fossem gente. Se calhar até são. Eu é que não as conhecia antes. Vou andando com elas assim. Para as conhecer melhor. Tenho cá um palpite que isso nunca irá acontecer. Levo-as ao colo. Em abraços pesados. Até aos ossos é que sabem bem. Mesmo que se embargue a voz. Mesmo que não consiga fechar o livro ou que os olhos passem a ser água em abundância. Gostei tanto de as ter conhecido! O narrador é um chato. Deixo o aviso. Finge uma distância que não tem. Uma imparcialidade que não consegue. Deve ser por isso que está sempre a disfarçar ser outro. Enche-me de perguntas. O problema coloca-se, porque nem sempre tenho a resposta para lhe dar. Depois fico a pensar no assunto. Às vezes, no dia seguinte, ainda ando a cogitar no mesmo. E nem sempre gosto de festejar certas coisas. O autor nem se atreve a aparecer. Depois de expulsar o livro do útero, não o desejou mais. Diz que já não lhe pertence, que é do leitor. Que criancice, linda. Como se eles se pudessem separar. Eu acredito que os autores têm uma relação quase narcísica com os narradores. Espelham-se. Amam-se e odeiam-se. Querem-se tanto que, quando se desligam, choram. E grita o autor com o leitor, desenrasque-se que eu já fiz o que tinha a fazer. E continua a fazer, senhor autor.

E leio página a página com a mesma ganância com que roubava os caramelos que a minha avó trouxe de lá. Foi numa excursão, contava. E ria-se tanto que acabava sempre a chorar. O pior, ou melhor, não sei, é que eu acabava também a chorar. E ela afiançava que todos tinham comprado caramelos para adoçar os dias. E esperançávamos juntas. A minha avó está longe. Há muitos anos que não estou com ela, mas conversamos. Apesar da distância. O céu fica tão longe!

À minha frente, as personagens estatelam-se no chão ou no amor que, por vezes, é quase o mesmo. E a gente chora sem motivo ou por milhões deles. Confundimo-nos nas suas vidas. Percorremos os seus lugares. Agarramos as suas lágrimas como se fossem nossas. Na verdade, o que eu quero mesmo é entender que desgraça é aquela. Como vai tudo acabar. Resisto. Asseguro que, desta vez, não fui à última página. Não fui, mas custou-me um pouco. E se a narrativa for aberta? Vou ficar assim, sem saber nada? Não, não pode. E chego a pensar que me vou arreliar a sério com o narrador. Ou será com o autor? Eles mentem tão bem. Não a quero fechada. Que indefinição, a minha. Que teimosia a deles. Fecham a vida das personagens como se fecha um livro. Há casamentos e tudo. Para pior, bastam os funerais. Não gosto nada, declaro. Isso força-me a pensar no meu. Depois de morrer, quero lá eu saber. Vou para o céu e pronto. Não volto mais. Ignoro se as personagens morrem de morte desgraçada ou porque se acaba o prazo. Isto de estar fora do prazo de validade é mesmo uma maçada. Leva-nos às lágrimas vezes sem conta. A vida tem termo certo, não tem? Ou será que a inspiração do autor também morreu? Como a minha avó que gostava de ir comprar caramelos. Talvez não tenha mais páginas em branco para escrever. É tão bom ter uma folha de papel em branco! Ou uma parede que é bem maior. Mas não dá jeito nenhum. Mas consegue-se sempre. Não sei se vou experimentar. O que é mesmo obrigatório é um lápis. Há lá coisa melhor para escrever! Será que o autor escreve com um lápis? Ou é daqueles muito modernos que registam tudo através do teclado? Não sabe o que perde. Nada como um lápis de carvão. E um rascunho, claro. Assim risca-se livremente. À medida da nossa vontade. Só que fica lá o que se escreveu. Às vezes, risco tudo.

No outro dia, vi um pato. Estava sozinho numa espécie de piscina, próximo do rio. O que é uma coisa rara, pois o pato costuma encontrar-se com a sua mulher ao lado. Amam-se tanto, os patos. Olhei-o e percebi que bastava uma única personagem para que a narrativa se contasse. E chegava aquele espaço. Para que a ação se aconchegasse. E penso se o narrador seria capaz se fingir. Ou se o autor se atreveria a esconder-se. Eles contam histórias um ao outro, eu sei. E choram muito, depois de se rirem tanto. Eu é que tenho alguma dificuldade em distingui-los. Mesmo que os seus corpos falem com letras e palavras e frases e parágrafos e emoções. Tantas perguntas. Exclamações e reticências. E depois querem que eu os separe. Há vezes que não consigo. Mais uma razão para ter gostado tanto de ter lido o livro. As outras, não digo. Perdi-me. Chorei. Aplaudi. E desatei a rir. Até sorri. Fui até ao fim com o narrador e o autor a meu lado. Os dois. Ou os dois são um. Não sei. Só conheço o narrador, conheço? Juro que é verdade. Estive com os dois. Ou não foi nada disto? Mas não se podem destruir os factos. As opiniões, vá que não vá.

Só se for por malvadez. Não se destroem os sonhos desta maneira. Eu não quero chorar mais. Às vezes choro. Outras, não. Tenho esse direito, certo? Existem banalidades boas. Acredito. E fazem tão bem. Amor, ao livro, ao leitor, também é isso. Estar no outro lado. Como se estivesse aqui. Pronto, eu agradeço ao autor. Mas deixem-me sossegada com o narrador. Com as mulheres dele. Com o amigo dele. Está bem? Porque “há coisas muito tristes mas perder a infância é certamente uma das piores, não acham?

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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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