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ponto de admiração

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14
Mai08

com devolução de afectos - os bichos

Paola

p Sont-ils en train de disparaître?

 

Os bichos são verdadeiros nos afectos. Oferecem-nos laços de ternura que transcendem a razão. Devolvem-nos carinhos. Os bichos não conjugam os verbos espezinhar, torturar, humilhar, vexar, rebaixar, oprimir, aviltar,  silenciar, derrotar... A língua deles tem palavras e acções que se concretizam no amor. Os bichos só são artistas em  palcos plurais por maldade humana.

Há bichos feitos gente. Bichos irmanados com os homens nas mesmas desgraças. Bichos que se confrontam com a ambição, com a injustiça diária. Bichos que reclamam por amor, carinho e ternura. Com sabor a terra. Com  palavras de terra. Admiração pela vida.

Bichos que se revelam na leitura, ou releitura, de Os Bichos de Miguel Torga. Bichos também nós somos.

Hoje, talvez porque os humanos estão cada vez mais privados de meiguices, decidi  dar-vos mimos. Muitos.

 

Desejo a você... 
Fruto do mato 
Cheiro de jardim 
Namoro no portão 
Domingo sem chuva 
Segunda sem mau humor 
Sábado com seu amor 
Filme do Carlitos 
Chope com amigos 
Crônica de Rubem Braga 
Viver sem inimigos 
Filme antigo na TV 
Ter uma pessoa especial 
E que ela goste de você 
Música de Tom com letra de Chico 
Frango caipira em pensão do interior 
Ouvir uma palavra amável 
Ter uma surpresa agradável 
Ver a Banda passar 
Noite de lua Cheia 
Rever uma velha amizade 
Ter fé em Deus 
Não ter que ouvir a palavra não 
Nem nunca, nem jamais e adeus. 
Rir como criança 
Ouvir canto de passarinho 
Sarar de resfriado 
Escrever um poema de Amor 
Que nunca será rasgado 
Formar um par ideal 
Tomar banho de cachoeira 
Pegar um bronzeado legal 
Aprender uma nova canção 
Esperar alguém na estação 
Queijo com goiabada 
Pôr-do-Sol na roça 
Uma festa 
Um violão 
Uma seresta 
Recordar um amor antigo 
Ter um ombro sempre amigo 
Bater palmas de alegria 
Uma tarde amena 
Calçar um velho chinelo 
Sentar numa velha poltrona 
Tocar violão para alguém 
Ouvir a chuva no telhado 
Vinho branco 
Bolero de Ravel... 
E muito carinho meu. 

 
Carlos Drummond de Andrade

 

(imagem de portus callosum)

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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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