Quinta-feira, 15 de Maio de 2008

lixar

pHistoire d’un fleuve-poubelle?

(Rio Sado - imagem de costa azul)

 

automóveis e coisas do tipo

 

 

 

Não tenho carta de condução! Logo de que me serviria ter automóvel? Abdiquei! Em consciência. Há momentos em que sinto uma falta inexplicável de um carrito, outros em há em que dou graças por, num dia quente de Verão,  ter enfiado o carro numa vala farta em água e, seguramente, com excesso de largura. Ainda hoje, pago com títulos de transporte a minha falta de habilidade para desfazer aquela curva.

Não conduzo, logo não me canso na demanda de estacionamento seguro. Livre de qualquer reboque atrevido ou de um vizinho enfadado com a vida. No autocarro que diariamente me leva até ao local de trabalho, e leva-me sempre, tenho o privilégio de viajar acompanhada. Às vezes até com música, coisa rara na RL. Um transístor, à moda antiga, que em cima do tabliê se esganiça na veleidade de ser audível. Frequentemente sem êxito.

Entro, exibo a validade do meu título de transporte, sento-me e a inevitabilidade acontece. São vidas privadas a percorrer bancos de autocarro. São retalhos expostos em andamento. A vida é mesmo macabra, concluo. Banalidades. Testes. Desgostos. Desgraças. Gargalhadas. Exames. Necrologia. Dinheiro. Informática. Conselhos. Telemóveis. Números de telemóveis. Música. Encontros falhados, outros adiados. Sobras do fim-de-semana. Família. Exposições orais. O rol é imenso. A viagem é curta. A opção é difícil. Não sei que frequência escolher. No tabliê, o rádio dá notícias com solavancos. Interferências promovidas pelos buracos alcatroados a ponto cheio.

No banco do lado, jovens, com ar de quem frequenta o 10.º ano, atropelam-se com palavras. Aceleram com irresponsabilidade. Buzinam a falta de estudo. Travam respostas que não sabem. Enfiam-se por becos donde, só com muita sorte, sairão. Uma confusão no livre trânsito das perguntas e respostas.

Os jovens comunicavam numa língua estranha. Mas comunicavam que eu vi e ouvi. De vez em quando, socorriam-se de outra língua, mais específica, mais técnica. Para essa eu não necessitava de tradutor. O pior era quando tornavam ao idioma deles... O congestionamento do tráfego verbal devia-se à apresentação oral agendada para a tarde. Treinavam respostas. Exercitavam discursos. Ah, eu sei essa cena! Não é tipo... Ya, é tipo... Sabes aquilo... tipo... Ya, meu... é tipo. Então é tipo...? Nã, é tipo...? É tipo... ya, pois...tipo..

 

Quem será o tipo de que falam tanto? Pessoa importante, estou certa. Fiquei desassossegada! Curiosa! Que língua usariam na apresentação oral? Que língua falaria a professora?

 

No tabliê, o rádio dá a notícia de um aidente no IC19. O tipo só falava de sinistralidade nas estradas portuguesas. Lembrei-me de um tipo que um dia foi quase meu amigo. Confesso que cheguei a ter pena do tipo. Até é boa pessoa. Um tanto excêntrico, mas bom rapaz. Simpático e sempre disponível. A paciência que ele tinha com o meu  primo António!! E ele chegava a ser impertinente com o rapaz. É que o tipo da oficina não tinha mãos a medir... nem sempre lhe sobrava tempo para aturar o meu primo António. Bom tipo!

 

 

Estou: Admirada!

2 comentários:
De GMV a 15 de Maio de 2008 às 21:41
É por essas e por outras, que ao fim de um dia cheio de Tipos, também personagens, apanhamos outro transporte, onde falamos a nossa língua e ouvimos as músicas que nos interessam


De Paola a 15 de Maio de 2008 às 22:14
E falamos até mais não poder. Tanto que nós falamos. Até em estrangeiro...

Bjos


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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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