Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

ponto de admiração

ponto de admiração

16
Mai08

pelo teatro - sem pastéis de nata

Paola

 

- Professora, vamos comprar pastéis de nata? 

- Não, vamos ao teatro.

- Oooooooooooooooooooooohhhhhhhhhh!

 

i   Foi um lamento alongado. O pastel de nata, com canela e açúcar, espalhou goludice pelo autocarro até ao banco de trás. Um coro de tragédia grega. A verdade, é que também eu comeria um ou dois... Com um incontestável café. São magníficos os pastéis de Belém. Mas fomos ao teatro.

Nada é como era dantes. Nem os pastéis. A perda artesanal, diz-se industrialização. Há quem lhe chame progresso. Talvez seja. O progresso define-se nos avanços, não nos recuos. Afirma-se na prosperidade e cala misérias. Ninguém nega as marca de progresso pinceladas na rádio, na televisão, no automóvel, no telefone e no computador.

Reconhecemos a importância da vassoura, porém preferimos o aspirador. Compreendemos que o frigorífico tenha substituído a salgadeira onde a minha avó enfiava o pernil do porco, morto no Natal, e que  saía de lá presunto. Aceitamos a ida a lua como um feito notável para a humanidade. Coisas admiráveis. Assumimos a cesariana como natural ao invés do parto conforme à índole humana, conjugado no verbo parir. Inventámos eufemismos como modos de bem dizer. É progresso. Renegamos a história por ausência de progresso e inventamos outra, moderna, actual. Ignoram-se ambas. É progresso. Somos inteligentes, descobrimos um mundo virtual  com gigantescos centros comerciais. Com salas de cinema e tudo. Pode-se namorar, pode-se amar, pode-se fumar e comer pipocas. É progresso.
Entusiasmamo-nos com as passagens de moda, particularmente com os modelos. Falo de roupa! É progresso. O corpinho destapado é sinal de avanço. O desenvolvimento também está no tamanho da vestimenta. Por cá parece que a tanga está no topo das preferências. Desculpem, mas não tenho corpinho para tal, é mesmo o fato de banho.

Sou do tempo em que, na escola, se chumbava. Oficialmente reprovava-se. Na gíria estudantil a coisa ruim era uma raposa. Analogias cinegéticas. Agora transita-se... Um neologismo inchado de progresso.

Rejubilamos com as novas tecnologias que curam doenças e prolongam a vida. Morremos velhos e consumidos por tanto viver. Banalizamos as notícias que dão conta do aumento da esperança média de vida. Diferente para homens e mulheres. Acho bem! Sou pela diferença.

Comemos até mais não poder. Há de tudo para todos os gostos. Outrora, havia gosto, o comer é que escasseava. Por isso somos gordos e anafados. Temos a mesa e a sobremesa. E as bolachas e as pizas. Os refrigerantes de todas as cores e paladares. Com aloé vera. Uma praga nacional que ataca iogurtes, detergentes, bebidas, perfumes, cosmética... em simultâneo. Planta miraculosa.

Regozijamo-nos com o nível de desenvolvimento conseguido. Progredimos. Atrás do Brunei ou dos Barbados, mas à frente do Chipre. Lindo é ver a longevidade a aumentar!

A tragédia publica-se no jornal. Com  o coro a anunciar e a gerar visões e destruição. O drama  representa-se na transformação do corpo. Instala-se o medo. E a imagem de um pastel de nata ganha forma, cor, sabor e cheiro a canela.

E o jornal aponta o dedo da desgraça. A vida sedentária, os excessos alimentares e a diabetes entra em cena... o coro faz-se ouvir... é uma doença crónica que atinge quase um milhão de pessoas. Nas bancadas da arena o silêncio é absoluto. A personagem movimenta-se... um rumor confuso de muitas vozes mescladas com ruídos vários denuncia o assombro... a diabetes chega à boca de cena... o bruaá persiste.  Todos estão incrédulos. 

 

Diabetes faz baixar esperança média de vida na próxima década. A diabetes, actualmente a quarta principal causa de morte na maioria dos países desenvolvidos, deverá conduzir, segundo previsões da Organização Mundial de Saúde (OMS), a uma redução da esperança média de vida já na próxima década, fenómeno que ocorrerá pela primeira vez em 200 anos. (Diário Digital,14.05.2008)

  

Vou tomar um café... sem açúcar! A tragédia é sempre grega?

 

Nota - Os alunos não comeram pastéis de nata, facto que não os impediu de assistir à representação de Falar Verdade a Mentir de Almeida Garrett pela companhia O Sonho. Estiveram magníficos no comportamento, generosos nos aplausos, francos nas gargalhadas. Foi um gosto! 

 

(imagem de mare nostrum)

1 comentário

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2012
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2011
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2010
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2009
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2008
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub