Domingo, 18 de Maio de 2008

pelo sábado - conversas na esplanada

vg Esplanda, Vicent van Gogh

 

O arroz-doce da dona Perpétua, o café, as compras. Pelo meio, conversas convertidas em confidências partilhadas. Há que falar mesmo que não nos queiram ouvir. Até quando nos querem calar. Inventam-se espaços alternativos. Qualquer espaço é bom para ensaiar, desculpa amiga, eu queria escrever para conversar.

Comi arroz-doce com canela. É que lhe concede um aroma intenso, um sabor quente, uma cor que eu amo e música de especiaria afrodisíaca. Produto admirável! Eficaz nas enfermidades digestivas; fantástica na derrota dos males de Inverno, linda na arte de decorar pires e travessas. No próximo sábado vou tornar a comer arroz-doce, só que com mais canela!

Depois disse raivas, angústias, desenganos, incompreensões. Conversas à mesa com o almoço. Encenações de vida, desempemhos de nós. Iludi o tempo que me sobrava para um encontro marcado. No theatron, lugar de onde se olha e eu estive lá, na plateia e vi.

No meu acto de ver, o teatro finge-se no texto. Alinda-se nas didascálias feitas cenários e gostos. Adorna-se no guarda-roupa e na cooperação. Completa-se na movimentação cénica e na partilha. Diz-se no discurso inventado no palco. Embeleza-se no corpo e na voz dos actores. Cumpre-se no instante em que se dá ao público.

O encenador morre logo que o pano abre. Quando tudo é palco. No fim ressuscita. Recebe flores. Partilha aplausos com a ilusão de ter representado também. E representou! A cumplicidade não se encena, diz-se em segredo. O palco é um espelho que nos devolve o que vê, o que ouve... emoções partilhadas numa esplanada.

O teatro mostra. No teatro estamos e somos. Entre a a realidade e a utopia. Entre a comédia e a tragédia. O teatro retrata-nos enquanto actores distraídos ou empenhados ou comprometidos, mas actores. Tão bons que não nos apercebemos como a vida é uma representação. Por vezes só com um acto, todavia com muitas cenas... assim como numa esplanada de um qualquer café onde se dramatizam conversas da tetra, diálogos de miséria, falas trocados, textos programados. E aí caiu a máscara do ladrão de quadros da existência humana. Um gatuno de identidades e de património universal, um larápio de uma língua que almeja restaurar a Torre de Babel.

No teatro, vi meninos e meninas a actuar livres de preconceitos. Vi sorrisos a testemunhar o prazer que experimentaram. Vi olhares cruzados na cumplicidade. Vi mãos a corar de entusiasmo. Não vi pernas a tremer, mas estavam lá, em palco. Não vi vontade de abandonar o proscénio. O palco é vida e actuar é viver um papel. Por isso, acredito que  ninguém queira sair de cena... nem eu!

O teatro é um terapia com gosto a canela. Por conseguinte, vou continuar a ir ao teatro, a comer arroz-doce ao sábado, a viver e a ter conversas na esplanada. Tudo com muita canela.

 

(inagem de  Memento)


Aparte - Para os meninos-actores, para a encenadora e para a dramaturga repito o carinho e pago o prazer que tive. Foram grandes!

Estou: admirada!

Escrito por Paola às 09:00
Link do post | Adicionar aos favoritos
Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

pontos recentes

Ontem [Como se fosse já]

Desacerto [desabafo de um...

A outra margem [restauro ...

Oportunidade

Palavras pequeninas [E cr...

O rio

Sardinheiras

No lado contrário

Gola de laço

A conversa das canções [a...

Convento de Jesus [no tem...

Água do rio

Pelo caminho [as cegonhas...

No tacho [da minha infân...

Memória

RSS

outros pontos

Admiro-me... só por olhar!

Pesquisar neste blog

 

Abril 2016

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


SAPO Blogs

últimos comentários

Gostaria de saber se vcs mandar mudas de margarida...
A "fonte" é dada a narrativas extraordinárias...
Pois é...
Sabes uma coisa "pequenina"? Continuas a escrever ...
Por vezes, é assim...
Escrita poética Gostei.
Pois, sabe bem ler as tuas palavras... saudade.
Que lindo!! Como sempre, uma escrita deliciosa...U...
Em destaque no SAPO Blogs
pub