Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

ponto de admiração

ponto de admiração

19
Mai08

olhar

Paola

 

h à janela - devaneios pelo jardim

 

 

 

 

Sentei-me para espreitar pela janela. Aberta. Totalmente, como se não existissem caixilhos e vidros agarrados por aros. Numa cadeira que restava de uma mobília qualquer. Madeira escura com marcas de tempo que rangia perante a minha vontade de ver. Sem braços, o que me obrigou a sossegar os meus no parapeito de mármore que afastava a janela da rua. Um limite que ela queria galgar, todavia nunca ousou. A cadeira esticou as pernas numa magnânima tentativa de partilhar comigo segredos e fantasias. Tantas histórias que ela sabia de cor! Tantos livros que lera! De poesia, particularmente. Tantos os amores que celebrou, tantos os que chorou.

 

À janela, virada para a rua, eu espreitei o mundo. Lá ao fundo eu vi um jardim. Grandioso na simetria das suas formas, esplêndido na  grandiosidade, majestoso na perspectiva, benévolo nas desigualdades. Geométrico. Generoso em água e luz - lagos, repuxos e fontes. Jogos construídos no desenho das sebes e arbustos. Deslumbrante, este jardim. Sumptuoso. Excessivamente formal. Perfeito. Desenhado. Sem dúvida com régua e esquadro. Também com transferidor. As plantas, as flores não comunicam entre si… extasiam-se. Estranham-se. Prefiro a roseira do meu jardim. Pela humildade, pela pureza, pela irregularidade. Nasceu assim.

 

Sempre ambicionei ter um jardim só para mim. Invento um com cheiros. Com bonsais, bambu, buxo com desenhos estranhos, estátuas por todo o lado. Degraus perdidos aqui e ali, numa relação harmoniosa com a natureza. Com cerejeiras e cascatas. Tudo muito arrumadinho e perfumado. E com a árvore da felicidade. Perfeito. Contendo esconderijos propícios a promessas de amor eterno. Com visíveis raízes de árvores milenárias. Não sei porquê, mas com cheiro a incenso. E com ladainhas de súplicas aos deuses. Recantos favoráveis à reflexão. À descoberta de mim. Quem sou eu? Não sei! Devaneios irreflectidos de quem está à janela.

 

 Permaneço sentada numa cadeira que já está enfadada de mim. Eu subsisto. Ali.

 

É então que vejo montes e vales. Riachos e ribeiras. Pinheiros e oliveiras. E silvas com amoras pintadas de negro-maduro. Terreno desigual, sem estátuas nem jogos de água. Com caminhos desenhados nos carreiros enlameados. Porque chovera no dia anterior. Vejo cardos e tojo. Tudo cheira a rosmaninho e alecrim. A carqueja abrilhanta-se no amarelo das suas flores. No perfume das mimosas ouve-se no zumbido das abelhas. As papoilas misturam-se com as azedas – tantas que eu comi na minha infância. E onde crescem elas agora que não as vejo? Gostava do seu acre sabor... Para desenfastiar havia sempre um adocicado “rapazinho”. Uma seiva açucarada feita  néctar divino expunha-se assim. Uma flor pequenina, de cor avioletada, cujo nome verdadeiro desconheço. Sempre lhes chamei “rapazinhos”. Está assim na minha memória. E vai perdurar. Tenho charcos que sobraram das chuvas e lá dentro residem rãs e sapos. Estes só como enfeite, porque os abomino. Ao fundo, estende-se um medronhal. As copas dos medronheiros abraçam-se e beijam-se descaradamente. As flores são brancas. Os frutos terminam vermelhos. Os medronhos embriagam-se de alegria. Voluptuosos, riem à gargalhada.

 

No medronhal moram piscos de papo amarelo. Um passarinho discreto, canoro, pensativo ao Sol. De vez em quando surge outra ave. Pedante na poupa pontiaguda que lhe deu o cognome. E aparecem melros. Negros. Mais à direita da casa principal, uma cisterna. Guardadora de águas. Um poço que não é poço. O acesso à água faz-se por uma espécie chaminé. Que não é chaminé. Tudo o resto é um imenso terraço forrado a cimento. Aí invento. Invento-me. Ouço-me. E grito. O vale repete-me. O vento passa e rouba-me o bocado de carvão com que gizo brincadeiras de criança. Jogo aos quatro-cantinhos sem saber que o mundo não acaba ali.

 

Eu não tenho jardim. Se o tivesse não o agrilhoava em moldes geométricos. Não o planeava formal. Projectado. Antes instintivo. Um jardim. Fechei a janela. A brisa da quase noite resfriava-me as pernas e os braços. A minha cabeça permaneceu no medronhal com a convicção de que um espaço só é venerado quando nele se avolumam os silêncios. Então, sobeja a saudade.

 

 

[fotografia da internet]  

 

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2014
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2013
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2012
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2011
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2010
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2009
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2008
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub