Quinta-feira, 29 de Maio de 2008

palavra de aluno

 

p  Hoje apetece-me subir ao monte e explicar ao céu que a terra não é redonda. Que os rios não correm para o mar. Que o Sado navega ao contrário. E não disse nada a ninguém. Que amanhã é já hoje. Que ontem é passado. Que as raivas se abraçam todos os dias. E finge-se a paz. Que o meu nome não é o meu nome. Porque odeio possessivos. Que o vento é apenas o vento. Não sabe o que faz, o tonto. Que os poetas são enganosos. Eles roubam-me as palavras. Aquelas que eu quero, e sei, para narrar emoções. Ocultam-nas para que eu não as arruíne com admiração e amor. E entoam sentimentos mascarados de engano. Disfarçam-se e querem que eu finja também. Inventam situações para camuflar as palavras, os poetas. Jogam um jogo que não sei jogar. E as palavras escondem-se e mostram-se e calam-se e comunicam e dizem-nos. Os poetas sabem o léxico todo. Sinónimos e contrários. E querem mais. Inventam palavras que emudecem as minhas. O mago da palavra burila-a. Como se fosse de cristal. Tira-lhe a luz. Extrai-lhe as impurezas. Cura-lhe os males. Copia-lhe a beleza. O poeta lança as sortes. Invoca os deuses e as forças da natureza.

 

No monte, oiço a musa do poeta. Que escreve poemas. Ao som da lira...

 

O meu gáudio advém do facto de eles se traírem. Baralham o esconder com o mostrar. Só para que eu perca o jogo. E me desnorteie na discórdia de sentidos. E brincam comigo para me deslumbrar. No desacordo de opiniões. Na subjectividade dos olhares. O poeta baralha o que quer mostrar escondendo. O poeta trabalha o mostrar e o baralhar para não ter que dizer o que quer esconder.

 

Mas não posso! Não sei trepar.

 

 

Nota - Hoje, os meus alunos viram assim os poetas. Este texto é quase só deles…

 

 

(imagem de www.aleac.ac.gov.br/.../stories/poesia_25.jpg )

Estou: admirada

1 comentário:
De GMV a 29 de Maio de 2008 às 22:34
Tu não sabes trepar??? Tu és a escalada personificada.


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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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