Sexta-feira, 4 de Julho de 2008

Jacinta - II

 

l  Jacinta está perturbada. Não quer fechar a janela. Porque está calor lá dentro e a brisa corre fresca. A noite permite-lhe perscrutar para além de si. As luzes exaltam-se na calçada. Equivocam-se. Atordoam-lhe os sentidos. Há silhuetas nas esquinas dos edifícios disformes. Nas laranjeiras, as laranjas são cinzentas. Negras. Embriagam-se de Sol. As folhas perdem-se. As árvores são vultos medonhos que tornam claros e evidentes os pânicos na calçada. Há um mundo feérico e devastador na sua cabeça.

 

Pela janela chegam-lhe paladares e fedores. A terra cospe um cheiro nauseabundo. Debruçada no peitoril da janela, Jacinta actualiza estrondos vindos da terra que fede a excrementos dos cães que pernoitam ao relento. Os vizinhos resistem. Mas há animais sem dono. Ela sabe que acumular detritos domésticos e industriais é bem pior. E eles não se importam. Escorraçam os cães. O solo sofre estragos. As pessoas também. Tropeçam em plásticos, produtos de limpeza, tintas e solventes, pesticidas e componentes de produtos electrónicos. Sobras de móveis fora de tempo. Mas não se importam. Os cães latem no outro lado da rua. Latidos de incúria. Raivas do dono. Acenos sórdidos.

 

O calor incomoda-a. Suga-lhe a racionalidade. Embriaga-lhe o rosto. Jacinta sabe que o calor lhe apodrece a carne já corroída. Por isso, mais vulnerável. Está esgotada de estar à janela. Está escuro. Não vê. A luz é privada. A lua não veio e as nuvens, carregadas de ameaças, escondem as estrelas. Jacinta tem paladar e olfacto apurados. E antevê.

 

Está muito calor aqui, não está? Jacinta aprendeu que o calor é responsável pela sua ira. Que abolorece os frutos do quintal que não contempla dali. Tudo está nublado e pardacento. As raízes gritam lágrimas secas e amareladas. Exigem água. Sem entender que vão morrer. Como o tapete vermelho que ela ignorou no estendal. Empalideceu. Manchou. A alma urde-se em fios que o calor conjura.

 

Jacinta olha para a esquerda. Lá ao fundo está o hangar onde aquartela as palavras que lhe devoram sobejos da carne e do ânimo.  Não o consegue fitar nos olhos. Inventa-o.

 

Jacinta sabe que a sua sobrevivência está naquele barracão. Ali dissimula as palavras que a agastam. Contudo, ela teme que um vendaval o assole. Ou que a terra o devore. E que o fedor pestilento teime em entrar pela janela.

 

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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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