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ponto de admiração

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08
Jul08

Jacinta - III

Paola

  O Sol já vai alto. Uma luz branca anuncia todas as cores do arco-íris. Mas está quente. Muito quente. O Sol é traiçoeiro. Gera, cria e destrói tudo. A terra não. É mãe. Uma incubadora universal. É ninho, é fertilidade. É amor. Por isso gira muito devagarinho, não vá a vida acordar.

 

Poucas pessoas circulam na rua. Apressadamente sobre calçadas escaldantes. Com as cabeças desprotegidas. O Sol provoca-lhes pensamentos vertiginosos. Impulsos que não conseguem controlar. Fogem para casa com medo de ímpetos maliciosos. Com vontades ignóbeis. Não prestam atenção. São pessoas confusas, desorientadas e incapazes de pensar com clareza. Deliram. Não têm culpa. É o Sol que as empurra. A vida é um delírio e às vezes o aroma sabe a morte.

 

O Sol vai alto. Não está ninguém na rua. Percebe-se a hora. Cumpre-se o ritual da tarde. Três, quatro horas? Possivelmente… Há silêncios que deixam entrar os ruídos. Estrondos de desânimos amontoados. Bofetões de palavras que contundem. O Sol. Os vermes. A existência. Interpõem-se as distâncias. Choros de meninos. Vultos e sombras de ontem. Restos que sobraram. E os restos são desprezáveis. Olhares que se fingem noite. Mas o silêncio é um deserto. E depois há o mar. E os gemidos e os cheiros das gaivotas. De barcos fundeados a fingir que vão para o mar. Sobra-lhes a vontade.

 

Lá ao fundo, o Sol já cai nos olivais, depois do barracão, à esquerda. A rua vê na solidão. Mas ainda existe o Sol que as agita. O calor faz bulir as palavras trancadas em casa. Não se retratam no papel. Aí, o mal é maior. Morreriam amarrotadas e jogadas no lixo. Talvez confundidas com restos de pão e de espinhas. Escassas sobras do jantar. Que deu para o almoço. A escrita não permite pedidos de desculpa. No oral ainda vá. As palavras murcham. As bocas estão cansadas. Escusam-se a multiplicar certezas evidentes. Está calor. O Sol ainda está aí. É óbvio!

 

O Sol já se prepara para se deitar. Cansado de um dia de trabalho. No corpo carrega o suor da rotina que decretou. Amanhã nascerá outra vez. Em casa, há descansos. Sombras caladas. Jacinta ainda dorme. Adormeceu com o corpo amassado e a alma moldada por calores que não suporta. Ela sabe que o calor gera uma necessidade irracional de satisfazer a sede com um instante de Inverno.

 

Farta do parapeito da janela, foi para cama. Fechou os olhos. Projectou um prado desmedidamente verde. Um riacho inquieto. Cristalino e gelado. Nas margens, desenhou uns malmequeres, umas crianças a correr e a gargalhar. E mulheres e alguns homens. O céu coloriu de um azul sem chuva. Esqueceu-se do vento que açoitava as árvores e os corpos. E assobiava. E trazia arrepios nos braços e na espinha. Na encosta, plantou pinheiros, sobreiros e muitos fetos. Não havia uma capela, nem se rezava o terço. Tão-pouco ovelhas à espera de um sino a cantar. Pintou o calor que a mata e muitos olhos com  sonhos. Qualquer um servia. Qualquer irrealidade que a levasse dali…

 

Jacinta acordou. Já o Sol estava ausente. Apoquentava-a o sal do suor que lhe chegava à boca. Nua, correu até à janela, ainda escancarada, e olhou. E lembrou-se que sabia de tempos em que o Sol nascia ali…

 

 

-  Bom dia... Bom dia... Bom dia!

 

 

Sem dar conta que já é tarde, cumprimenta as pessoas que passam como quem saboreia a alegria de se lembrar de alguém todas as manhãs.

 

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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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