Sábado, 12 de Julho de 2008

cansar

 solidão não é abandono

 

 

E mais um sábado se cumpriu. Numa civilidade irritante. Ainda por cima pedante. Ao sábado nem sempre gosto dos sábados. Eu sei que toda a gente gosta e depois? Eu às vezes não gosto.

 

Ao sábado não se trabalha. É mentira. Não ir lá não é o mesmo que não trabalhar. E há sempre tanta coisa para fazer. Coisas que não cabem nos outros dias. Protelam-se sempre. Sobram sempre. E é por isso que os sábados são dias cansados. Provocadores. Mascaram-se de ócio e depois obrigam-nos a trabalhar o dia todo. Ao sábado não há direito à preguiça. Agressivos, também. Desencaminham-me os desejos. Abomino tomar decisões ao sábado! Sim? Não? Talvez? E uma quarta hipótese, não aparece? O sábado é um embuste. Caio invariavelmente no logro.

 

Ao sábado as famílias ficam em casa. Afadigam-se tanto! Afiançam que são capazes de concretizar as vontades acumuladas na semana num só dia. Mas não podem. E há circunstâncias em que há vazio de pessoas ao nosso lado. Há momentos em que ninguém olha para nós. Só para si. Ao sábado choro a ausência de pessoas que amo. Ao sábado abro as janelas e as pessoas andam na rua. Com pressa. Como se fosse o último. É danosa a solidão que sentimos com gente ao lado.

 

Até chego a pensar que o vento e a solidão me devolvem o entusiasmo. Só que às vezes não percebo o vento e a solidão projecta silhuetas  nas paredes da minha verdade. Gosto da minha companhia. No entanto, sei que não me basto e aborreço-me com a solidão.

 

Por isso, comi arroz-doce acompanhada. Partilhei-o com a cor do infinito, do distante, da utopia. Também do frio, da frescura da manhã. O meu sábado coloriu-se de azul. Teve baloiços e ecorregas.

 

E as palavras surgiram, como sempre, doces e amargas. Decepcionadas e impetuosas. Iam e vinham, apregoando a sua liberdade de existir. Não estavam presas, nem engarrafadas. Umas brotaram violentas, ciclones devastadores. Outras irromperam tão plácidas que souberam a água benta.

 

Quando as palavras são aferrolhadas formam atoleiros ilegíveis. Há que moderar verborreias escusadas. Quando libertadas, as palavras desmoronam-se em avalanche desnorteada. Por causa disso, falámos. Muito.


Hoje é sábado. Eu quero a minha solidão. E poder dizer e falar sem nada pronunciar… Quero falar ao vento de todas as agonias sem os acanhamentos da minha ignorante humanidade. Quero a voz do silêncio e sentir a saudade.

 

Ao sábado tenho tempo…

 


Escrito por Paola às 23:45
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