Quarta-feira, 16 de Julho de 2008

admirar

às vezes sabe bem ser professora

 

 

Ainda a propósito de chorar gargalhadas, sucessos, êxitos, emoções e algumas contrariedades. Quando um ciclo de três anos acaba, a coisa é muito mais que lamúria. É perda, incerteza e cumplicidade. De ambos os lados. Eles sabem que é inevitável. Que crescer implica, também, mudar de escola. Ganhar e perder amigos. Mas choram e riem. Fazem promessas. É sempre assim.

 

- Obrigada, professora!

 

Não percebi o destinatário dos agradecimentos. Não conhecia quem falava. Não é comigo, pensei. E permaneci nos meus afazeres.

 

- Professora…

 

Olhei, porque o sou. Não que conhecesse a pessoa que olhava para mim. Esbocei um sim um tanto incrédulo. Igualmente idiota.

 

- Sim, é consigo que quero falar.

 

Levantei-me. Dirigi-me até ela. É a minha mãe, professora. Ouvi do outro lado do corredor. E o sim saiu, agora, interrogativo. A senhora falou. Sorriu. Agradeceu. Por si e por mais umas tantas mães que agradeciam também. E por eles, pelos alunos. A minha voz encolheu-se face ao elogio. Não fiz nada de especial. Apenas o meu trabalho. Repete que sim. Que fui rigorosa e que isso foi bom. Eu sorri ironias e cansaços. Agradeceu o apoio dado à filha. Pois, só que isso é a minha profissão. Que ela tinha compreendido. Ainda bem. Fico muito contente. E que se esforçou para não me defraudar com a nota do exame. E os outros do mesmo modo. Aceitaram o meu desfio. Conseguiram. Ainda bem! Particularmente por eles.

 

- Ela e eles, apontou, fizeram hoje uma entrevista… Candidataram-se a um estabelecimento de ensino... E lembraram-se de si, das exposições orais… Obrigada, por tê-los ajudado.

 

E jorraram palavras provocadas pela circunstância. Claro que vão conseguir. É a minha profissão. E eu gosto mesmo é dos alunos. E mais umas tantas frases estouvadas. Garanto que suspirei de alívio quando deu o assunto por encerrado. E foram embora a olhar para o futuro.

 

É verdade que eu fiz o que devia e eles também. Mas gostei. Assim, a minha barriga nutriu-se com mais uns afagos. Outra vez.

 

Sempre me esforcei por dar sentido às aprendizagens. Por lhes retirar alguma da excessiva carga teórica que têm. Ainda bem! É que os moços foram à entrevista. E nas suas cabecitas entraram memórias. Tem lógica. Faz sentido que os alunos percebam. E os pais também. Que o sucesso deles é, e sempre foi, o meu.

 

Para que conste. Numa tarde cheia de sol e calor, vi brilho no olhar deles. Recebi uma medalha de regozijo com sabor a entrada no 10.º ano. Não é de ouro, nem de prata. Nem sequer de bronze. Não é de metal sequer. Não tem cotação no mercado bolsista.

 

Apenas fica cativa no meu coração. Não revelo outros detalhes… não a vá alguém encontrar.


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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