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ponto de admiração

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17
Jul08

brincar

Paola

 

brincadeiras no alcatrão

 

 

As brincadeiras dos meninos e das meninas do meu país acontecem no 2.º andar, Frente, de um imóvel situado por aí. Numa cidade grande ou pequena, tanto faz. Entretêm-se nos infantários desde as sete da manhã. Os mais crescidos só brincam aos intervalos. Em recreios de mosaicos. Poucos em chão empoeirado e lamacento. Uns e outros não têm condições. Os pais vão recolhê-los tarde. O tempo é pouco e gasta-se no banho e no jantar. Ficam-se a dever diálogos, partilhas e afagos. Os mais crescidos consolam-se com a televisão que está no quarto. E modernizam recados pela Internet. Até tarde. Muito tarde. No outro dia chegam à escola com a cabeça a dormir e com os dedos cansados de tanto escrever. Palavras encriptadas. Erros caligráficos. Abreviaturas inventadas. Estrangeirismos desnecessários. Mas escrevem e dialogam. Trocam afectos. Tudo à distância. Tudo filtrado por um monitor TFT. Tudo tecnologia de ponta. No quarto ao lado, os pais dormem um sono estafado e moído de anos de trabalho. Não dão por nada. Sonham que os meninos estão a dormir. Profundamente. E mesmo ali, dentro de casa, eles correm perigos estúpidos. Porque acauteláveis.

 

Os meninos do meu país brincam e conversam no quarto. Ou na rua. Até tarde. Tanto uns como outros não sabem que a vida é astuciosa. Que há pessoas sem escrúpulos. E eles são incautos. Mas hábeis a manobrar tecnologias. E fazem perguntas que os pais não escutam, por isso não respondem. Adormeceram sem tempo para dormir.

 

Os meninos da minha terra brincam na relva do jardim, convencidos que estão a jogar às escondidas numa seara de milho. Esticam-se em argolas e correntes persuadidos que estão a trepar às árvores. Olham para o lago com patos de aviário, como se eles próprios nadassem no ribeiro da aldeia da avó. Apavoram-se se um gafanhoto chega primeiro que eles ao escorrega. Gritam atormentados com a presença de uma libelinha. E garantem que são bichos esquisitos. Horrendos. Ferozes. E os bichinhos abalam espavoridos, sem compreender tamanha histeria. E vão contar aos outros animais que viram uns bichos com costumes requintados a berrar no jardim.

 

Os meninos da minha terra não têm chão para brincar. O alcatrão é negro e malcheiroso, mas eles gostam. A terra não, que suja. É lama e pó. E ervas e bichos. E árvores e flores. E frutos e céu. Choveu pouco, mas o cheiro da terra molhada provoca-lhes enjoos. O cheiro a hortelã, a orégãos e a coentros são fedores. Por isso, escrevem mensagens e usam a Internet para descobrir como é uma couve portuguesa.

 

E ao fundo da rua, onde existia uma horta com uma nespereira generosa, há buracos. Valas abertas à espera de alicerces. Amanhã, as nêsperas são janelas com aros cromados e os cortinados esvoaçam afugentando os pardais.

Lá dentro, indiferente ao vento e às borboletas, um garoto joga com uma bola virtual. Num jogo fantasiado. Com jogadores a fingir. Ao lado, pacotes de batatas fritas amontoam-se vazios.

 

O pai nunca o levou ao futebol. Não tem tempo. Na televisão da sala, a notícia sabe a calamidade nacional. E ele não percebe o motivo do alvoroço. Nem a causa da obesidade infantil.

 

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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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