Sexta-feira, 18 de Julho de 2008

Jacinta - IV

m   - Bom dia! Bom dia!

 

Nada tinha importância. O que ela queria era que todos tivessem um dia com sabor a exultação. Não lhe interessavam as horas. Se pudesse, atrasaria o relógio. O dela e das pessoas que percorrem a crua. De um lado para o outro. Uma vez, duas, três… Sempre pela calçada, sem perscrutarem o tempo. Num movimento pendular: repetitivo, monótono. Queixam-se, de quando em vez, que lhes sobeja tempo. Não sabem que fazer com ele. Como era escasso o que têm para viver. Contam os dias e os anos sentados no banco que está no outro lado da rua. Debaixo da árvore de copa redonda. E quantas vezes decidiram parar os relógios que trazem no pulso! Desistem de tamanha ousadia. Escasseia-lhes as forças. De nada serviria se no torreão da igreja as horas do tempo sucedem-se com o aprumo de um general. Eles sabem que, um dia, ficarão silenciados numa hora qualquer. Os ponteiros são pérfidos. O seu percurso está corrompido. É para lá que olham e fazem figas e imaginam que ninguém dá corda ao relógio. Às vezes, os sonhos voam  e não deixam ver as horas. O tempo que ainda têm corre mais apressado que os ponteiros enferrujados pela sucessão de anos, dias, horas e momentos que envolve cada um deles. Desvairado, desafia-os para um jogo de corrida de sacos. Como se eles tivessem pernas par mais uma prova de resistência. A vida já tinha proposto o mesmo entretenimento. E eles jogaram sempre. Agora estão gastos. Só isso.

 

Jacinta sorri. Acena aos poucos transeuntes que se atrevem a sair de casa. Ainda está calor. O Sol permanece desperto. Pronto a incandescer as caras descontraídas da gente da terra. Olha para si e vê que germinou dentro de um corpo extraordinário. Aperfeiçoado pelo tempo e abençoado pelo Sol. Sem dúvida, a única ocupante de um corpo complexo. Sensível. Dona de um cérebro complicado e apinhado de devaneios. Sonhos que nutre do mesmo modo que cuida de si. E ajuíza as possibilidades. Está viva. Viva como a roseira que cresce junto ao barracão. Mas mais apetecível. Ela sabe que é mais do que uma planta. As flores não lêem revistas. Nem vão de férias. Não se comovem. Não se interessam pelo Sol, nem sabem de que cor é o céu. Na rua, os olhos masculinos brilham com intensidade e despem-na mesmo no passeio. Sem pudor. Sem respeito. Na rua ela sente a ganância dos apetites varonis e isso fá-la ficar irritada, apesar do seu ego se entusiasmar. Afinal, Jacinta é uma mulher bonita. O seu rosto transporta tempestades, mas o seu corpo impele o Sol. Ela brilha de forma magnânima.

 

O telefone toca. Sobressalta-se. Corre para o quarto. Deixara o telemóvel em cima da cama. O sinal de um sono tranquilo é evidente. O lençol repousa aos pés do leito tal como ela o dobrara. Por causa do calor. Atende. Do outro lado não estava ninguém. Chegara tarde. Apenas um número no visor. Uma chamada não atendida.

 

Senta-se numa cadeira de madeira estofada em couro branco, Jacinta tem as mãos aturdidas. O corpo implora o que a cabeça impede. E lamenta ter estado tanto tempo à janela. A perplexidade impede-a de tomar uma resolução. O orgulho também. Um sentimento que engrandece a sua dignidade pessoal. E o Sol...

 

Jacinta arremessa o corpo, ainda nu, para cima da cama e agarra-se às mágoas que tem no coração. E chora.

 

  

(Fotografia da Internet)


 

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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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