Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

ponto de admiração

ponto de admiração

24
Jul08

Jacinta - V

Paola

 Jacinta chora. Constrange-se com a dor que lhe assola um corpo carregado de lembranças e afeições. O corpo de Jacinta tem paixões. Umas passaram por ela sem que ficassem vestígios. Esfumaram-se com o tempo. À medida que o seu corpo florescia. Enrolaram-se na areia dos desertos que percorreu. Da praia que descobriu. E as gaivotas gritaram restos que lhe povoam o ser.

 

O primeiro beijo… Puro e inocente. Infantil. Foi à tardinha, já o Sol se escondia no horizonte, nas traseiras da casa que habitava com os pais e a avó paterna. O João beijou-lhe o rosto. Ela corou e ele também. Um beijo espantado. Desprevenido. Disseram-se palavras que nenhum escutou. Porque em redor das suas cabeças, as emoções gaguejavam promessas de amor eterno. Os lábios do João rebolaram mansamente nos dela. E foi assim, que a partir daquele instante, passou a ter um namorado. Todas as meninas da sua idade tinham. Clandestino. Sem que ela tivesse concorrido para o facto. Aconteceu e pronto. Jacinta e João viveram o segredo com a intensidade de quem descobre um ninho no laranjal. Lembra-se vagamente do rosto do rapaz. Acredita que se tenha feito homem. Eventualmente bonito. Provavelmente feliz.

 

Jacinta amou mais vezes. Talvez não. Acredita que a amaram. Permitiu que a amassem. Se amar é sofrer, então apenas uma vez amou de verdade. Amar é só olhar. Apenas uma vez olhou. E sorriu. Ser bonita dá-lhe firmeza e inunda-lhe a alma de ousadias. Mas apetece-lhe ser menos apetecível. Tantas vezes que pediu para ser feia. Mesmo que a subjectividade a deixasse na dúvida. Beleza é uma percepção individual. Agrada aos sentidos. Não se explica. Depende do contexto e do universo de quem a observa. Saboreava o prazer com que os olhos azuis do seu pai lhe repetiam a vaidade. O orgulho. E a sua mãe que a alindava com vestidos de estrear ao domingo. Porque afectos incorruptíveis. Legítimos e sãos.

 

Todavia gostava da perturbação com que os homens olhavam para si. E os namoros calhavam, na sua vida, naturalmente. Depois caíam no chão. Como as laranjas no laranjal. Por causa da seca. Diferenciavam-se pelo sabor. Umas doces, outras tão amargas que nem para o amor serviam. Por vezes, desconfiava. E incomodava-se. Considerava-se um troféu. Uma variedade rara que fora apanhada. E enjaulada. Patenteada. Jacinta suspeitava dos homens. E não sabia se o amor lhes germinava no coração ou nos olhos. Predadores obstinados. Não podem ver um rabo de saias, troçava com acidez.

 

Numa manhã fresca de Outono, e tantas já passaram, abalançou-se no desvario. Foi ela que deu o primeiro sinal. Só porque lhe apeteceu. Queria jogar um jogo que ainda não havia jogado. Agitar-se. Ainda era uma mulher muito bonita. E ele disse-lhe que sim.

 

Está calor. Jacinta, ainda nua e prostrada na cama, chora convulsivamente. A sua mão direita aperta com lágrimas um telemóvel com uma chamada não atendida. Jacinta chora as tábuas partidas de um amor que desistiu de consertar. E navega ao sabor da maré e do vento da sua paixão.

 


 

Foto da Internet

2 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2012
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2011
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2010
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2009
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2008
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub