Segunda-feira, 21 de Julho de 2008

enganar

  perigos e mentiras

 

   não tenho 3 meses de férias!

 

Sou do tempo em que a escola que respondia às necessidades de uma sociedade calada e torturada. Aprendia-se o que eles queriam que nós aprendêssemos num sistema agrilhoado e centralizado. Num livro único. A preto e branco. Com ilustrações estúpidas e distantes da realidade.

 

A escola que o Estado Novo impôs em Portugal era elitista. A população portuguesa era analfabeta. E Portugal a ignorância foi o expediente de um regime que censurava a informação e proibia as liberdades políticas. Impunha uma orientação religiosa. Separava os rapazes e das raparigas. Os professores utilizavam com muita frequência castigos corporais severos. É tudo verdade. Há testemunhos.

 

Atravessei a chamada “primavera marcelista”, apesar da minha inconsciência política. Por isso, só depois de 1974 é que comecei a perceber a razão dos meus acidentes escolares. Mas não me queixo muito. Uma ou outra reguada e pouco mais. O que odiei mesmo foram as chamadas a História, já no ensino secundário.

 

Nada do que aprendi, ou memorizei, me fez mal. Nem sequer a catequese ao sábado e a meia hora diária a cargo das freiras que viviam num convento mesmo ali ao lado. Talvez tenham contribuído para a construção da minha religiosidade. Ou a falta dela. Agradeço-lhes o tributo para o aperfeiçoamento do meu sentido crítico. É que a algumas práticas da igreja católica portuguesa não lembram ao mafarrico. Nem o óleo de fígado de bacalhau que provocava vómitos contidos e lágrimas pequeninas, não fosse a professora ver. Também não sei se fez bem. Mal não fez. Até as fotografias colocadas por cima do quadro, idolatradas por obrigação, foram úteis para mim. Aprendi a reconhecer os rostos daqueles que sugaram a liberdade e ofenderam um povo com a violência do poder.

 

Não foram as lições de Salazar, e seguidores, que me fizeram pensar como eles. Todavia, esses preceitos ensinaram-me que os deveria rejeitar. E ainda hoje não aceito que o País seja, como era, representado por uma galeria de santos, mártires e heróis. E tantos que fazem a primeira página dos jornais…

 

Aguentei e teimei. Hoje sou professora. Com um programa centralizado, e único, que cumpro. Com liberdade de dizer. Cerca de 34 anos depois de Abril, a sociedade portuguesa ainda não compreendeu que os professores de hoje não são os de então. Que se é professor 365, ou 366, dias por ano. E ao serão. E ao fim-de-semana. Agora também por email. Porque um professor não é um produto acabado.

 

Hoje, da mesma forma que odeio um regime que analfabetizou um país, não suporto que me digam que tenho 3 meses de férias. É que não tenho, nem nunca tive.

 

Quanto tempo mais é preciso para que se saiba que os professores não têm culpa das cambalhotas que o ensino tem dado em Portugal? É que eles também são vítimas.

 

Já chega! Abril cumpriu-se em 1974…

 

 

(Fotografia da Internet)

 


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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