Terça-feira, 5 de Agosto de 2008

passear

danos na coisa pública

 

 

Passear no parque equivale ao passeio domingueiro no jardim. Só que parque soava melhor aos meus ouvidos de menina soalheira. A palavra jardim é um vocábulo perfumado. Com muitas cores. Com borboletas a esvoaçar. E abelhas porque o fabrico do mel é uma canseira. Sempre de um lado para o outro à procura de paladares. Tanto que elas se cansam. Fazem piqueniques de néctar. E polinizam flores de cores cinzentas e enfadonhas. Também as beldades cheirosas. Por vezes com pesticidas perversos. E o problema está na contaminação. E a rainha, coitada! Ali fica prostrada e preocupada com a procriação. E tem lago. Uns com peixinhos vermelhos. Também já os vi com patinhos. E cágados envergonhados que se encurralam na carapaça num ápice. Jardim é verde. Muitos verdes. E com um Sol no fim.

 

Parque é um termo robusto. Porque fechado. Murado. Lá dentro avisto baloiços e escorregas. Montanhas russas com comboios fantasma. Monstros e fadas. E tiro à lata com bolas de trapo. Parque é diversão. Alguns também são verdes. O verde que as árvores têm e as plantas também. E a relva.

 

E perco-me nesta grandiosa confusão de gostos, opiniões, factos e palavras, porque as palavras são o que são. Saem dos dicionários e agarram os sentidos das pessoas. Às vezes, não chegam para todas as sensações. É por isso que os sinónimos são precisos. Também os antónimos. Mas isso é quando elas são contraditórias e não bastam para dizer o que cada um quer dizer. Ali, naquele instante. Ao contrário. Isto de estar sempre de acordo é uma maçada. E as palavras, que são astutas, sabem-no muito bem. Bailam connosco e depois fogem. E fica-se sem forma de verbalizar a movimentação do pensamento.

 

Hoje fui ao jardim. Que, felizmente, se chama jardim. Tem verde nas árvores e nas plantas que nas pontas têm flores pintadas e perfumadas. E um lago com peixinhos mortos. E outro lago sem pato. Não gostei. Claro que não gostei que tivessem esmurrado o jardim. De que morreram os peixes? Maré negra não foi com toda a certeza. A flora está lá e os sinos não tocaram a rebate. Detestei que o pato tivesse desaparecido. E que a casota que lhe serviu de abrigo esteja inteiramente ao dispor da bicharada que voa por ali. Será que o levaram por distracção? Desgraçadamente…

 


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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