Sábado, 16 de Agosto de 2008

sossegar

desemprego em Agosto

 

sábado com nuvens e chuviscos

 

Perguntei ao tempo o motivo do seu pesar. Assim que olhou para mim desatou a chorar. E numa linguagem enrolada esboçou sorrisos ensolarados. Tímidos e muito pardacentos. Sem saber se podia confiar. Reclama que está tudo mal. Que assim não consegue. Que lhe estão a assolar a vida. O seu olhar contém nuvens cinzentas, com formas estranhas. Taciturnas e manhosas. E sublinha que as nuvens também são água. Pedi-lhe que sossegasse. Ele disse que sim. Sem, no entanto, deixar de alertar para males que acontecem aqui. Porque as nuvens divulgam-se velozes. A notícia espalha-se,  que o vento ajuda. E há sombras sobre Pequim.

 

Perguntei ao tempo a razão do seu sofrer. Não sabia. Sentia-se derrotado. Desequilibrado. Explica que os homens desarranjam tudo. Por isso, tão desconcertado. Acrescenta lamentos. Assume-se como não culpado. E que chuva em Agosto não é do seu agrado. De quando em vez o sol espreitava. Depois, escondia-se. 

 

Conheci-a quase menina. Depois, uma linda mulher. Sem nuvens. De olhar fresco-esverdeado e sorriso dourado. Nos livros lia histórias de viver e saber. Diplomou-se para que dúvidas não sobrassem. E foi para a escola ensinar os meninos a crescer. Andou por lá uns tempos. Que o tempo avançou desorientado. Hoje, num sábado desgovernado de Agosto via-a. O seu olhar é, agora, cinzento-escuro. Da cor do desemprego. Não tem meninos para ensinar que

 

Fortuna, enfim, co Amor se conjurou
contra mim, por que mais me magoasse;
Amor a um vão desejo me obrigou,
só para que a Fortuna mo negasse.
A este estado o tempo me achegou,
e nele quis que a vida se acabasse;
se há em mim acabar-se, que eu não creio;
que até da muita vida me receio.

 

Camões

 

porque o livro fechou . Agosto a empregou. Trinta dias de labuta. Tinta dias de mísero salário. Trinta dias a prazo. Faço as férias da dona da loja... depois não sei. E o seu sorriso amarelo-desbotado agradeceu ao tempo. Num bazar que vende coisas a um dinheiro e meio.

 

Eu fugi. Olhei para o céu e vi-o excessivamente nublado. Ele chorou, eu é que não. Mas não comi arroz-doce por causa dos pardos triglicéridos. Neste sábado de Agosto, o tempo estranha as razões do seu chorar. E estranhar é não compreender. Não aceitar. Não estar à espera de um insucesso previsto. Vais conseguir, miúda.

 

 fotografia de Paola


Escrito por Paola às 17:26
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